Aílton Rocha é poeta, contista e ensaísta. Intelectual de Muzambinho, interior de Minas Gerais, possui estreitas relações com alguns dos grandes escritores brasileiros.
Tive o prazer de conhecê-lo em um fórum de discussões de música clássica, na internet. Trocamos algumas mensagens, e desde então venho aprendendo valiosos valores relacionados à arte humana. Impressionante sua clareza de raciocínio, capacidade de concentração, implacável lógica e, sobretudo, sua sensibilidade. Rocha pinta um retrato da mente humana em direção ao transcendente com profundidade e predomínio das sensações. Sensações psicológicas.
Recentemente tive a honra de receber via correio alguns de seus livros publicados, devidamente autografados: “Imagens” (poemas), “Nove Histórias de Amor e Vida” (coletânea com contos de três escritores, incluindo Aílton) e “Realismo (quatro histórias)”.
Em “Imagens”, o lúcido e cristalino jogo de palavras; a incrível orientação estética; a relação da mente humana com a natureza, com o insondável; e, em alguns momentos, lirismo, doçura, candura.
AH! QUERO SIM QUE OS LÍRIOS, A LUZ,
A brancura da luz te abram os olhos.
Que teus braços se desembaracem das
Algas marinhas – das vãs ilusões.
Que abram asas, abram asas teus braços,
Teu vulto de luminosa borboleta.
Voe, que voe, contornada de brilho!
O azul e nuvens sempre serão o teu lugar.
Rompam as algemas os teus pensamentos.
Para o sol! Para radiantes estrelas!
Para Deus! A amplidão está em ti!
Mas abre tuas asas, borboleta-celeste!
Um só dia, sobre mim, em meu coração. Tú!
Flutuante esperança! Amor que nunca tive!(de
Dois sonetos, de “Imagens”, pág. 54)
E vejam que nível de profundidade o autor alcança nesse trecho do conto “Quinze dias de chuva”, em que o narrador-personagem conta a sua experiência e convívio em um manicônio:
“Com que sonha um louco quando dorme? Será se é lúcido e há paz nesse sono? Ou loucura mesmo é pensar, refletir, como constantemente fazemos? (...)
O mistério. (...) Um pequeno fio, apenas um fiozinho de nada ampara a nossa lucidez. A qualquer momento pode acontecer a ruptura (...) A deformidade do entendimento (...) O que passa por detrás desses olhos mortiços? (...) É a verdadeira escuridão noturna. Em certos momentos, há um brilho. Será a clareza de quem desnudou os limites do real e do imaginário? Será a compreensão de quem rompeu o nó, o elo que nos liga ao enigma da existência? E eles nos olham, abrangentes, e, por instantes, riem, só nos cantos dos lábios como se reconhecessem em nós o ridículo e o verdadeiro absurdo. E não podemos trazê-los de volta. Não podemos compreender. É um segredo que retorna em espiral a uma outra região, desconhecida e abissal.”(
Quinze dias de chuva, de “Nove histórias de amor e vida”, pág. 73)
Em
Realismo (quatro histórias), talvez sua obra mais profunda, a submersão no inconsciente e nos mistérios da mente humana é de uma interiorização impressionante. É obra para reflexão, de impacto, complexa, densa e profunda. Esses contos “foram construídos a partir da observação da psique humana, e criados como labirintos, câmaras, corredores subterrâneos”, conforme as próprias palavras do autor. Utilizando psicologia jungiana, símbolos esotéricos e técnicas expressionista e surrealista, o escritor aprofunda-se no realismo interior de seus personagens, com sensibilidade extrema, sentindo-lhes a dor com uma experiência humana, e criando, a partir de técnicas de assimilações variadas, um clima que sempre tende ao fantástico, ao insólito e ao inusitado. Sinceridade e originalidade são aspectos essenciais de sua de sua inconfundível estética. Conforme as palavras de Américo Carnevali Filho, “é realismo íntimo, criatividade artística e, ao mesmo tempo, sofrimento de toda a Humanidade”.
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_ Papai, o aquário não é um simples aquário, como o senhor pensa.
_ O que é, então, meu filho? Perguntou o engenheiro Jean Paul ao menino.
_ O aquário – repitiu ele – não é um simples aquário.
_ Explique-se melhor, filho. De onde tirou essa idéia? Tornou a perguntar o pai, de uma maneira desatenciosa, porque já estava acostumado com aquele tipo de pergunta.
_ Pai, pai. Pare um pouco esse esquadro. Ouça o que tenho a dizer antes que seja tarde demais.
_ Sim, meu filho. Já parei. Pode dizer agora.
_ Meu pai! Todo aquário tem um caminho para o oceano. Todos eles têm um túnel. Eu consigo enxergar a passagem no fundo do aquário... Eu vi a passagem...
(início do conto
O Menino que Gostava de Peixes, de “Realismo - Quatro Histórias”)