Alex Klein

Já escrevi uma crônica aqui sobre o Concerto para Oboé e Orquestra, que assisti ao vivo, com a OSESP pelas mãos de Alex Klein. Alex Klein é um dos músicos mais renomados da atualidade, e representa um refinamento artístico altíssimo entre os músicos brasileiros, ao lado de nomes como Antônio Menezes, Cláudio Cruz e Nelson Freire.
Hoje trago aqui uma transcrição de um texto Jornal Valor, sobre o virtuose brasileiro.
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Há três anos Alex Klein foi o primeiro - e até agora único - músico brasileiro a ganhar um Grammy de verdade em 2002. Não os da oportunista categoria "Latina" marqueteiramente criada pelo prêmio com objetivos comerciais, mas o de melhor gravação clássica do ano, em que é o solista do "Concerto para Oboé e Pequena Orquestra" de Richard Strauss com músicos da Sinfônica de Chicago regidos por Daniel Barenboim. Pois agora o paranaense Klein está sendo obrigado, aos 40 anos, no auge de uma carreira fulgurante, a abdicar de parte de suas atividades como oboísta. Isso depois de ser durante nove anos o primeiro oboé da Orquestra Sinfônica de Chicago, e de várias gravações internacionalmente reconhecidas. Klein não consegue mais conviver, desde o ano passado, com uma doença chamada "distonia focal", distúrbio neurológico que provoca movimentos musculares involuntários que resultam em torções, posturas anormais e movimentos repetitivos de uma parte do corpo.
"Tive de abrir mão do trabalho na Sinfônica de Chicago", revela em entrevista ao Valor, "porque não me era mais possível agüentar o ritmo intenso de trabalho musical diário de no mínimo cinco horas". A distonia focal faz com que, depois de algum tempo tocando, Klein perca o controle dos dois dedos intermediários da mão esquerda - e por consequência embaralha totalmente a música.
Mas, felizmente, ao menos no caso do brasileiro, não se trata de uma decisão radical. Sua distonia focal lhe permite combinar o trabalho como oboísta com o de outras atividades - a regência de orquestra, à qual vem se dedicando com empenho desde 2004. Assim, "não dá para ser oboísta em tempo integral, porque, além do descontrole, o exercício continuado provoca forte tendinite", diz Klein, "mas é perfeitamente possível tocar durante uma hora por dia".
Ainda bem que ele pode continuar empunhando seu oboé. Pois Klein forma, ao lado do pianista Nelson Freire e do violoncelista Antonio Menezes, na raríssima linha de frente dos músicos brasileiros que realmente - de fato e de direito - possuem livre trânsito e reconhecimento internacional. Só para dar uma idéia do seu ritmo frenético de atividades, Klein acaba de lançar dois CDs no mercado internacional pelo selo americano Cedille Records: "Wind Concertos", com obras concertantes para oboé por compositores do século 18 como Cimarosa, Molique e Moscheles; e um duplo com concertos de oboé do século 20, com obras do checo Bohuslav Martinu e de dois parceiros de estudo dele: o polonês Pawel Sydor e o brasileiro Marco Aurélio Yano. Em ambas as gravações, excepcionais, ele é acompanhado por uma das mais afamadas orquestras do leste europeu, a Sinfônica Checa, regida por Paul Freeman.
Detalhe importante: Klein estudou no Instituto de Artes da Unesp com Marco Aurélio Yano, precocemente falecido em 1991. O belíssimo concerto "de formas brasileiras, foi assim que o encomendei ao Marco Aurélio", diz Klein, permaneceu incompleto. O oboísta encarregou-se da orquestração e a obra foi estreada ano retrasado na Sala São Paulo por Klein e a OSESP. E agora recebe sua primeira gravação mundial.
"Não há qualquer limitação de ordem física por causa da distonia focal nestas gravações", afirma o músico. "A questão é saber balancear o volume de esforço, a quantidade de horas dedicadas ao instrumento". Uma audição minuciosa comprova que Klein nunca esteve em forma tão espetacular quanto nestes registros. Tão bem, aliás, quanto sua extraordinária performance no concerto de Richard Strauss que lhe deu o Grammy (no CD "Teldec").
"É impossível imaginar o impacto que tive ao me sentar pela primeira vez como oboísta na Sinfônica de Chicago. Isso aconteceu num dia de março de 1995 - à minha frente, ao piano, estava Daniel Barenboim, que só não é lenda absoluta porque não deixa isso acontecer. Ele solou e regeu o terceiro concerto para piano e orquestra de Beethoven. Foi um marco zero para mim. Minha vida musical começava ali".
Um depoimento desses, tão emocionado, pede explicações. Qual o segredo? "A primeira lição que aprendi com Barenboim - um autêntico gênio na linhagem de Furtwängler e Karajan - foi que o concerto é dos músicos, e não do maestro. Cabe ao regente antenar-se com as idéias que os músicos estão pondo em prática ao tocar", diz Klein, que realizou há poucas semanas um concerto muito bom ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal em São Paulo.
Outra regrinha que os maestros nativos costumam desrespeitar, apelando para "enrolation": o trabalho do maestro se faz nos ensaios, que devem ser muitos, e não no momento do concerto. Assim, aqueles gestos grandiloquentes que tantos batuteiros fazem só valem mesmo para a platéia incauta -- os músicos sequer se dão ao trabalho de olhar para o pódio. Isso se deve também ao fato de que boa parte dos nossos maestros são regentes ... de espelho e de discos. Mas esta é outra história, que se deve à rarefeita cena sinfônica brasileira (contam-se nos dedos o número das sinfônicas que merecem este nome - e muito provavelmente nos dedos de uma só das mãos).
A segunda lição é fundamental: é preciso, a todo custo, combinar o alto nível musical com o empenho social. "Não sou um viajeiro fanático", diz ele. "O trabalho em Chicago me ensinou que você ganha identidade na medida em que se insere na comunidade, enquanto, claro, persegue o ideal de fazer música segundo um padrão elevado".
São estas bem-vindas premissas que Klein trouxe para Curitiba quando decidiu, ano passado, sair da Orquestra de Chicago. Teve de deixar os dois filhos, de 7 e 10 anos, nos Estados Unidos, mas procura conviver com eles o máximo de tempo possível, já que pratica quase uma ponte aérea entre Brasil, EUA e Europa. Ele está gravando, no momento, nos EUA, para a Cedille Records, um disco ao lado de músicos da Orquestra de Chicago que inclui, entre outros, arranjos de alguns dos caprichos para violino solo de Paganini, da brasileiríssima "Tico-Tico no Fubá"; em setembro grava o maravilhoso quinteto de Mozart com o Quarteto Vermeer; e, por fim, faz turnê européia com músicos da Filarmônica de Berlim com quintetos de Mozart e Beethoven. Isso significa que, como oboísta, Klein continua convivendo com os melhores músicos e as mais qualificadas salas de concerto do planeta (sem esquecer as gravações internacionais). De quebra, será o solista da Sinfônica de Chicago em concerto no dia 3 de novembro na suntuosa e respeitada sede da orquestra.
No Brasil, ele rege a Orquestra de Câmara da USP em outubro, fará recitais em São Paulo e em Uberlândia, em Minas Gerais. E declara-se disposto a um trabalho a longo prazo, na direção artística de uma orquestra que queira consolidar-se musicalmente e também inserir-se de modo expressivo na comunidade á qual pertence. Maiores informações e contatos podem ser feitos através do site www.alexklein.com. Uma oportunidade histórica, que qualquer secretário de cultura um bocadinho mais arejado gostaria de aproveitar. Vejam bem: não é Klein quem está pedindo emprego. É o Brasil que não pode perder esta chance de fazê-lo criar raízes permanentes por aqui. A música agradece.
Fonte: Jornal Valor, 17 de junho de 2005

