Contrapunctum

Este blog visa divulgar informações do campo da música de concerto (clássica ou erudita) e de outras artes e ciências de forma interativa, bem como expor idéias, opiniões, comentários e textos variados em áreas diversas.

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Name: Anderson Paiva
Location: São Paulo, SP, Brazil

Tenho 26 anos. Clarinetista e compositor amador. Sou evangélico (CCB), aprecio a música, a leitura, navegar na internet (fazer pesquisas e participar de fóruns). Gosto de conversar assuntos diversos, no campo das idéias. Tendência à reflexão e à introspecção. Predominantemente tranqüilo. Não tolero a falsidade e a arrogância. Prezo a humildade, a empatia e a lealdade. Sou um pouco desatento ao meio em que vivo, mas perspicaz na percepção das personalidades alheias. Conheço bem meu interior. Aprecio a discussão, no bom sentido; o debate de idéias. Incomodo-me com decisões de última hora, prefiro as coisas planejadas. Mas não sou organizado, nem metódico. Aliás, o oposto disto. E-MAIL: anton.stadler@gmail.com

Sunday, March 26, 2006

1685: BACH, HANDEL e SCARLATTI

Esse texto é do meu amigo Aílton Rocha, poeta e escritor. Segue sua introdução e desenvolvimento:
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O breve ensaio que aqui se faz presente foi encomenda do amigo Edgard Brito – compositor, pianista e professor de história da música – com o objetivo de introduzir seus alunos pelas vias da fascinante música barroca. Que os mais experimentados no assunto me perdoem os momentos em que a paixão pela arte carrega-se de cores, sacrificando o estilo sóbrio da imparcialidade histórica.
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1685: BACH, HANDEL e SCARLATTI
Ailton Rocha


O ano de 1685 é considerado uma dádiva para os amantes de música, principalmente os da música barroca. Três gênios nasceram sob o auspicioso sol desse ano: Bach, Handel e Scarlatti, o Domenico.

Não é novidade alguma: Bach é um marco na história da Música. Foi pouco conhecido em vida como compositor, porém nos anais da época já se falava dele como um organista, o maior de todos. Hoje, através das partituras, sabemos que é a maior obra para órgão de que se tem notícia, e mais: a Obra de Bach, em sua totalidade, é a culminância do que a música erudita chegara até então. Até a morte, em 1750, Bach é a confluência de todos os estilos e técnicas dos períodos anteriores. É, de fato, a súmula da Música até aquela data!!! E, como importância artística, muitos dizem: é a maior de todos os tempos, perdendo em importância histórica apenas para a obra de Beethoven, já que esta delimitou todo um comportamento musical da humanidade; ultrapassando o campo da arte atingiu aspectos sociológicos e filosóficos, focalizando a individualidade do criador como o cerne da obra criada.

Não é exagero o epíteto: Bach e Haendel, os dois gênios alemães, pilares do século XVIII! Além destes, poderíamos citar Telemann, músico competentíssimo, porém na maioria das vezes apenas artesão. Haydn e Mozart eram austríacos. Beethoven ainda não escrevera as suas obras-primas.

Em questões de profundidade, não é possível fazer comparações entre os dois maiores músicos alemães do século XVIII: Bach e Haendel (ou Handel para os ingleses). O primeiro, em tudo que compôs, é muito mais profundo do que o segundo. No entanto, Handel é mais brilhante, no sentido de nos arrebatar de imediato. Bach, de tão profundo que é, às vezes chega a nos deixar exaustos. Em Bach sentimos cargas e cargas de profunda emotividade religiosa e complexidade artística que nos exaurem. Em Handel há uma liberação natural do êxtase, do luminoso, do júbilo, que não nos exige concentração excessiva, excetuando, é claro, a maioria de seus oratórios, que muito nos pedem de atenção, devido ao dramatismo condensado.

Se Bach é a súmula da Música escrita até os meados do século XVIII, então, podemos dizer que Handel é, especificamente, a súmula do período Barroco. Quem quiser estudar o Barroco em suas linhas gerais, deve estudar a Obra de Handel, pois nela concentram-se todos os estilos em voga nos séculos XVII e XVIII, peculiares a cada país - o italiano, o francês, o alemão e o inglês. A Alemanha está nas obras sacras iniciais; a França dos Couperin está resumida nas suítes para cravo bem como nas suítes orquestrais; a Itália dos Scarlatti, nas óperas; nos Concertos Grossos concentram todas as tendências desde Stradella e Corelli a Geminiani; a Inglaterra de Purcell é revivida nos anthems, maskes e odes comemorativas.

E para iniciar o estudo de Handel deve-se primeiramente tomar como ponto de referência a personalidade do homem e as tendências psicológicas do artista: Handel possuía natureza cosmopolita e tinha como objetivo a arte de espetáculos. É muito importante ter isso em mente. Ele não podia e nem queria fazer uma música excessivamente profunda como era a obra religiosa de Bach, concentrada no reduzido espaço das igrejas luteranas da época.

Deve-se iniciar o estudo de Handel pela sua Música de Cena, ou seja, a Ópera. O compositor voltou-se integralmente para o Oratório somente quando não foi mais possível se dedicar à sua expressão preferida, a música cantada em palco com cenário. Mas em Handel há pouquíssimas diferenças entre os dois gêneros vocais: o encenado e o não encenado.

Depois do gênero dramático, para compreendermos Handel, só mesmo estudando a outra característica fundamental de sua obra: a voz. Apesar da preferência pela expressão teatral, foi, devido à sua Música Vocal não encenada, principalmente os seus Oratórios, também verdadeiros dramas, que ele passou definitivamente para a História da Música. São os maiores e mais geniais já escritos, surgindo daí a necessidade de estudá-los minuciosamente. São tantos no catálogo que nos perdemos à primeira vista, mas os maiores continuam sendo estes: ‘Saul’, ‘Samson’, ‘Israel in Egypt’ (diferente, com total prioridade aos coros, contendo poucos trechos de voz solista) e o monumental e mais elaborado de todos ‘Judas Maccabeus’. E, por fim, o ‘Messiah’, ápice dentre todas as obras de Handel, principalmente pela sua característica mais sublime: a espontaneidade. Se tivesse escrito apenas esse oratório já lhe estaria assegurada a imortalidade. Há outros, como os referidos acima, que estão no mesmo nível, mas a fluência e o frescor dessa obra relatando a vida de Cristo com tanta ternura a distinguem de todas as outras. Nem as elaboradíssimas cantatas que formam o ‘Oratório de Natal’ de Bach conseguem suplantar o Messiah de Handel.

Handel, portanto, era artista essencialmente vocal. Quando escrevia música instrumental era com um pouco de má vontade, embora jamais tenha sido pequeno nesses gêneros. Os Concertos para Órgão eram bastante populares em sua época, porque Handel os executava antes da publicação como aberturas e interlúdios das óperas e de alguns oratórios. Os Concertos Grossos, a melhor parte de sua produção orquestral, juntamente com algumas suítes, são peças brilhantemente construídas sem, contudo, demostrarem inovações. Da mesma forma são as obras para cravo e as obras de câmara. As Sonatas Op. 1 são obra didática, mas bem diferente das de Bach, que se dedicava conscientemente ao ensino, considerando-o como uma das funções mais importantes de sua vida. (É impressionante a sua dedicação na idade madura e, depois, na velhice, aos dois livros do Cravo Bem-Temperado). Handel, não. Dedicava-se ao ensino somente nas horas de folga, para atender pedidos de algum editor ou de nobres que lhe mostravam contentamento, sabendo dos filhos aprendendo com o mestre. Na maioria das vezes, compunha para os gêneros instrumentais mencionados mais para satisfazer os seus interesses financeiros, pois a venda de partituras de obras nessa área retornava-lhe dinheiro mais rápido.

Os hábitos do músico e do homem Bach eram, de certa forma, provincianos. Viveu toda a vida na Alemanha em um círculo espacial restrito: Eisenach e arredores, Weimar, Koethen, depois Leipzig. Já Handel, o grande Urso Branco, conforme os contemporâneos o chamavam, era homem inquieto que gostava de viajar: deixou presença na Alemanha, Itália e Inglaterra. Sentia-se um cidadão do mundo. A sua devoção era o palco, a sua manifestação artística era a dramática, e o seu principal instrumento de expressão era a voz. Eis as características handelianas: cosmopolitismo, teatro, voz humana (em coro ou isolada). E Luminosidade.

O padre Vivaldi escreveu música maravilhosamente luminosa! Luminosos são os Concertos de Brandenburgo de Bach - a música mais feliz e perfeita que já se escreveu. Mas a luminosidade mais poderosa é a de Handel - aquela que nos arrebata, que nos hipnotiza e nos faz cantar junto.

No mesmo ano de 1685 em que na Alemanha nasciam Bach e Handel, também surgia em Nápoles, a 26 de outubro, o genial Domenico Scarlatti, filho de outro importante músico, o Alessandro. O pai, famosíssimo na Itália, inibiu o talento do filho durante muito tempo. Apesar de receber encomendas de missas para a Basílica de São Pedro em Roma e óperas para Veneza e Nápoles, as obras do compositor filho, principalmente aquelas da juventude, eram apagadas e comuns. A poderosa sombra paterna o perseguiu até o momento da libertação: ao morrer o pai, Domenico nasceu artisticamente. Começou a compor peças para cravo enquanto ensinava a princesa Maria Bárbara, primeiramente em Lisboa, depois Sevilla e Madrid, quando ela se tornou rainha de Espanha. Scarlatti acompanhou-a e, semelhante a Handel em relação a Inglaterra, o compositor napolitano adotou sinceramente a Espanha como segunda pátria. Essa terra ensolarada com a presença musical dos gitanos foi uma revolução em sua arte: somada à sua genialidade, tudo que viu e assimilou do país transformou-se em uma das mais ricas músicas de que se tem notícia. A obra para cravo de Domenico Scarlatti é de uma prodigiosa verve rítmica e de uma criatividade melódica tão inovadora que sempre há de nos espantar e maravilhar. É sempre risível o ato de colocar obras e artistas em pódios como se fossem desportistas em competição, mas em alguns casos não há como evitar. Scarlatti é o maior compositor para cravo de toda a história da música. Nem mesmo a complexa inventividade de Bach consegue suplantá-lo. Não há como escolher as melhores entre as mais de 500 peças para esse instrumento que ele escreveu. Então não escolha! Ouça-as indiscriminadamente que o lucro será o mesmo, sem deixar de lado a lembrança: elas não foram compostas para serem executadas no piano, mas sim no cravo, onde elas brilham com a natural intenção do compositor. Tenho certeza de que se pudéssemos conhecer todas elas, perguntaríamos: por que ele não escreveu mais 500 obras assim? Guardada a diferença de gêneros, considero-as, pelo alto nível artístico, tão versáteis e magistrais quanto as cantatas de Bach.

Eu, por exemplo, e isso é ato individual, quando preciso de energia rítmica, dinamismo aos atos do cotidiano ouço Domenico Scarlatti, que me impulsiona e vitaliza. Nos momentos em que sinto vontade de compenetração para mergulhar nos interiores íntimos da fé, da reflexão ao êxtase dos mistérios, empreendendo jornadas em busca do interelacionamento Criador e Ser criado, ouço Bach. Quando quero a expansão, o vôo através de livres panoramas sem filosofar sobre o motivo do céu ser azul e verdes serem as relvas, apenas sentir a presença do sublime e natural êxtase, ouço Handel.

Mas, a verdade é que não se resume a arte de tão grandes compositores em tão breves palavras. As analogias são imperfeitas da mesma forma que são inexatas as definições - jamais podem dar total idéia da individualidade de cada um, porque cada autor ou obra tem a sua voz própria e distinta; além disso, cada ouvinte percebe as nuances de modo diverso. A música de Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Handel e Giuseppe Domenico Scarlatti sempre hão de nos levar a êxtases diferentes e renovados.

Algumas curiosidades históricas para terminar esta breve explanação:

Bach e Handel, os dois maiores músicos alemães do século XVIII, nunca se encontraram, embora tenham nascido com diferença de menos de um mês um do outro (o primeiro a 21 de março, o segundo a 23 de fevereiro), e em cidades cuja distância não ultrapassa os 40 km (Eisenach e Halle). Bach sentia uma profunda admiração por Handel, que era muito mais famoso devido às óperas constantemente apresentadas em Londres e na Europa. Certa vez, Bach locomoveu-se até Halle para conhecer Handel, pois recebeu a notícia de que o Urso Branco procurava cantores para sua nova ópera, e aproveitava o tempo para visitar a mãe. Mas uma ironia do destino providenciou para que houvesse o desencontro. Ao chegar na cidade, Handel já havia partido de regresso à Inglaterra.

Handel, entretanto, quando de suas andanças pela Itália, tornou-se grande amigo de Domenico Scarlatti. Ambos eram jovens de 23 anos com a cabeça imersa em sonhos e ambições musicais. Em 1708, os dois compositores e virtuoses do teclado se conheceram em Veneza e juntos seguiram viagem para Roma. Nem imaginavam que iam registrar perenemente os respectivos nomes nos anais da história da música, e nem podiam imaginar que o destino os levaria para outros lugares, países que adotariam como pátria, onde morreriam distantes dos locais de origem: um, na Inglaterra; o outro, na Espanha. Embora não tivessem se encontrado de novo, a amizade durou a vida toda, através de cartas assíduas, permanecendo a mútua admiração.

Chegará o tempo em que não mais existirão as demarcações territoriais que distinguem uma terra chamada Inglaterra, ou Alemanha, ou Itália, ou EUA. Outros povos ali habitarão, com outros hábitos e denominações, com sentimento de pátria e idiomas irreconhecivelmente transformados. Porém, seja nos conglomerados urbanos, seja nos cantos mais remotos do planeta, se existirem pessoas capazes de ler e exercitar os escritos musicais deixados pelos mestres, além de outras gentes com sensibilidade e boa vontade o suficiente para soprar na cinza a brasa que a faz viver, então não estará perdida a Grande Música. As artes, entre elas a música, estas sim poderão sobreviver aos mesquinhos propósitos de todas guerras e impérios.

Sunday, March 12, 2006

Conceitos da arte e música contemporânea

Uma vez uma professora de Educação Artística nos perguntou: "O que é o belo?". E acrescentou: "É o mesmo que bonito?".

As respostas foram evasivas, e ela nos falou: "Belo é algo que está além do conceito de 'beleza', de 'bonito'. Imaginem uma pintura que represente o sertão nordestino, com as feições de um homem sofrido. Esse quadro representaria a fome, a miséria, a pobreza dessa região pobre do Brasil na figura de uma pessoa que traz em suas feições as marcas do sofrimento. Esse quadro não é bonito. Mas é belo".

Não, ela não nos disse com essas palavras. Mas de uma maneira mais breve e singela, ela nos transmitiu exatamente o sentido da paráfrase acima. E essa verdade nunca mais me foi esquecida.

Na hipotética pintura, a figura não seria bonita - o contrário, até. Mas representaria uma VERDADE ESSENCIAL, uma VERDADE HUMANA. São esses valores que transcedem o famigerado e vulgarizado significado de beleza, de estética, e alcançam o sentido de BELO.

A arte deve ser bela, mais do que bonita. E antes que bonita, deve ser VERDADEIRA. Debussy disse: "a arte é mais bela das mentiras", e uma frase de Picasso diz "a arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade". Mas a arte é uma manifestação verdadeira, elevada e sofisticada do ser humano. Uma expressão genuína de aspectos que estão além da linguagem. E para ser verdadeira, a arte deve ser fiel a si mesma e a um ideal, e não pode ser uma cópia, um pastiche. O sentido da arte evolui com a história e - atenção - essa progressão não é o tornar-se "melhor ou pior", como muitos deduzem. É uma progressão natural na linha do tempo. Em parte linear, em parte cíclica.

Harold Bloom, o mais importante crítico literário da atualidade, diz que todo artista deve superar a influência de seus antepassados. Isto é "re-leitura", é superação, é vencer a "angústia da influência", de que ele trata em seus livros, como o Cânone Ocidental - ainda não li o livro. A arte deve ser verdadeira, e por vezes, até "impura, e deve-se primeiro aprender, para depois esquecer", como sempre lembra o compositor Marlos Nobre.

PORÉM...

O público, o grande público, de nossos dias - o que diz apreciar arte de qualidade -, aprecia somente as formas "clássicas". Na música, é o barroco, classicismo, romantismo e, quando muito, um pouco do modernismo. E... SÓ. Na pintura, na poesia, na literatura, idem.

Muitos criticam um Webern, um Schoenberg, Boulez, Ligeti, John Cage, Stockhausen, etc. Mas... antes de criticá-los, não é preciso tentar comprendê-los?

Qual é o sentido da arte? Arte não é algo muito mais profundo do que o "bonito?".

Não há como voltar para trás. Não há como voltar a compor em estilo barroco e clássico novamente. A arte não pára, nunca. O pastiche, a imitação e a falsificação são medíocres.

Deve-se se estudar o passado e, orientado nele, assimilando e FILTRANDO influências, deve-se caminhar PARA FRENTE, sempre com novas idéias e experimentações. No meio dos novos passos, muita coisa equivocada pode ficar no caminho, mas o que vale é o aprendizado, e neste campo, mesmo os ERROS são válidos, e levam a algo superior. Não há como CRIAR sem tentar, experimentar, e até, de vez em quando, falhar. Vejamos o caso de Pierre Boulez: o grande público simplesmente não compreende sua música! Mas ele é aclamado pelos profissionais, críticos e musicólogos - os que realmente estudam música a fundo e a conhecem - como um dos grandes compositores do nosso tempo. Fica a pergunta: a arte é só repetição do que se aprendeu a gostar? E como criticar sem, antes, compreender?

A Sagração da Primavera, de Stravinsky foi vaiada em sua estréia. Ninguém entendeu nada, à sua época. Mas hoje ela já está a vencer barreiras, e até mesmo alguns conservadores a apreciam. Mahler, quando foi incompreendido, disse que sua música só seria compreendida depois de cinqüenta anos, e assim aconteceu. Van Gogh pintou 879 quadros e só conseguiu vender UM em sua vida. Mas a posteridade o compreendeu e Retrato do Doutor Gacht, um dos seus quadros mais famosos, foi vendido em 15 de maio de 1990 em apenas três minutos de leilão por 82,5 milhões de dólares.

Pensem: o papel da arte não é algo além do que produzir algo de que já nos acostumados a gostar, e achamos "bonito"? J. S. Bach, além de não ter sido apreciado em vida como compositor, não foi esquecido após sua morte, vindo sua música a ser reconhecida apenas um século depois?

Pessoal, vamos reconhecer e tentar compreender a música contemporânea! Por que reconhecer só os que já foram? De que adianta, para o compositor, ter sua arte reconhecida postumamente?

Será que julgar a música que está sendo produzido agora - ou a música de cinqüenta anos atrás - como "lixo", algo que "não presta", ou "ruim", não é algo pretencioso demais? Com que métier julga-se com tanta facilidade algo que não se conhece, algo que quase não se chegou a ouvir? Como, com tanta facilidade, julgam toda uma época, toda uma geração de artistas profissionais, e conhecedores de seu ofício?

Simplesmente ignoram, "riscam" as manifestações mais recentes do seu conceito de "arte", e consideram quaisquer que a apreciam como um bando de "pseudo-intelecutuais".

Será que o belo, a verdade essencial não está além do conceito vulgarizado de "bonito", e não é algo mais complexo e elaborado, que está além da capacidade de assimilação do público, transcedendo o conceito usual de "estética"?

Mas tentando-se, e dando-se uma chance - primeiramente a si mesmo, e depois, à arte de HOJE, que é a nossa, que é a dos compositores vivos -, tentando-se, com paciência, ouvindo, lendo e estudando, alcança-se o sentido verdadeiro do que é arte, cuja concepção hoje é mais complexa do que há séculos atrás.

Quanto há para aprender!

A arte hoje possui um mui profundo sentido filosófico, e ela esconde significados além do evidente, do superficial. A arte não é um belo mar, bonito, sendo apreciado na superfície juntamente com os pacíficos pássaros e um belo crespúsculo...

Lembrem-se de que se o mar é bonito na superfície, mas é nos recônditos e nas profundezas do oceano que se abrigam os verdadeiros mistérios, desconhecidos, e o que há de mais belo. E o público de hoje aprecia o passado, e compreende a sua superfície. Mas a arte de hoje é um oceano incompreendido.

Friday, March 03, 2006

O estereótipo de cada musicista

Piadas musicais... são boas!

Vejam essas do meu amigo Bernardo Scarambone ("berber"), doutorando em piano, em Houston:
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O ESTEREÓTIPO DE CADA MUSICISTA

Maestro - Sujeito magro, porte austero. Veste-se muito bem, adoraria usar roupas mais confortáveis, mas a imagem não permite. Oculos é obrigatório. Careca (ou quase). Um cara normalmente chato, aquele que só é convidado para o "choppinho de depois do concerto" por obrigação. Olha a todos de cima, mas adoraria ser popular. Suas piadas não têm graça nenhuma, mas todos riem. Em suma, é o idolo do violinista, mas, no fundo
no fundo, admira o trompetista. Carro preto ou prateado do ano.

Oboísta - Todo oboísta queria ser maestro, mas a timidez o impede. Sempre muito reservado, necessita ter tudo sob controle. Perfeccionista por natureza.
Dedos finos e cabelo sempre bem alinhado. Fica sempre meia hora depois do ensaio, limpando o instrumento. Vai à manicure, mas é segredo! Seu momento de glória é dar o Lá para afinar a orquestra.

Violinista - Alto, sempre com um pinta de importante. Adoraria ser maestro, mas acha uma posição muito inferior ao seu talento. Considera-se o mais importante da orquestra e tudo que diz reforça essa tese. Antes do ensaio, toca sempre partes do concerto de Brahms, para impressionar os outros violinistas. Quando o maestro chama a atenção de outro naipe, o violinista sempre dá um sorriso sarcástico, quase
imperceptível. Sai de cada ensaio com o orgulho de "dever cumprido" e vai para casa - um apartamento minúsculo -, onde uma foto da mãe está acima do espelho gigante na sala.

Violoncelista - É um cara legal. Um amigo para toda hora, mas muito fofoqueiro. Sabe da vida de todos da orquestra. Adora tocar solos de violino nos harmonicos só para irritar os violinistas. Loiro, o cellista é mais charmoso do que bonito. Acha-se um
privilegiado por não ter que levantar no final do concerto e é vaidoso.

Violista - É o coitado da orquestra. Introvertido, olhar triste. O maestro nunca lhe
chama a atenção: afinal a parte a viola não tem importância mesmo. Começou na música com sonhos ambiciosos de ser um violinista de sucesso, mas por falta de talento ou estudo trocou para a viola e, desde então, é um frustrado. Juntamente com o pianista
acompanhador, é um suicida em potencial, mas sem coragem para o ato. Carrega sempre o estojo surrado com a viola e sempre responde com um sorriso amarelo a pergunta "você toca violino?". Um segredo: todo violista tem um bom coração, mas ninguém percebe.

Contrabaixista - Baixinho e temperamental. Escolheu o contrabaixo para "impor respeito", mas o tiro saiu pela culatra. Estuda somente nos ensaios, a não ser que tenha que tocar uma peça barroca, onde é o único a tocar o baixo. Acha-se importante por sustentar toda a orquestra, mas na verdade sabe que ninguém o ouve. Sempre com camisa branca e cabelo curto. Toca baixo elétrico secretamente.

Violonista - O melhor amigo de todo mundo. Companhia perfeita para o choppinho da tarde. Rabo de cavalo e óculos escuros são pré-requisitos. Relaxado e "eclético", mas odeia ser chamado de guitarrista. Tem vários amigos e várias namoradas. Jura que toca
um instrumento clássico, mas não hesita em aceitar fazer "cachê" em barzinho de bossa nova. Passat velho ou bicicleta.

Pianista acompanhador - Olhar cabisbaixo, terno preto e surrado. Cabelos castanhos e despenteados. Carrega sempre uma pastinha com partituras. Odeia cantores, afinal "Não sabem contar". Autoestima em baixa, é um suicida em potencial. Jura que nunca mais
vai aceitar tocar "em cima da hora", mas sempre aceita uma emergência. Vive com a esperança de que alguém finalmente reconheça seu trabalho duro - o que nunca
acontece.

Pianista solista - Cabelo preto e curto. Sempre ocupado porque precisa "estudar". Nunca vai a festas, e, quando aparece, vem sozinho e sai mais cedo. Quando olhamos em seus olhos, nunca sabemos o que está se passando pela sua cabeça. Tem um papo agradável, mas é um alienado em relação a assuntos extra-musicais. Adora comparar gravações de outros pianistas. Tem sempre uma ou duas cantoras apaixonadas por ele, mas está sempre muito ocupado para relacionamentos. Admirado pelos violinistas, acha tocar música de câmara uma perda de tempo.

Organista - Cabelos completamente desalinhados, barba por fazer. Sempre correndo de um lado a outro carragando dezenas de partituras fora de ordem. Vive num mundo à parte. Óculos somente para leitura. Roupas amassadas e surradas. Um desavisado diria que é um professor de química ou um gênio incompreendido. Odeia pianistas. Solitário, mas fala pelos cotovelos, quando o assunto é dedilhado ou afinação da Renascenca.
"Deus é Buxtehude, Bach já foi prostituído pelos pianistas."

Harpista - Mulher, magra, e bem branca, com cabelos desalinhados. Muito tímida, nunca é vista entrando ou saindo dos ensaios, mas está sempre lá. Usa sempre vestidos compridos e meio "fora de moda", mas tem um sorriso simpático. Seu carro tem vários
adesivos com harpas por todo lado. Adora chat rooms. Ninguém conhece seu namorado, mas ele está sempre por perto para colocar a harpa no carro depois do concerto.

Trombonista - Cabelo castanho e um pouco acima do peso. Sempre com uma piada na ponta da língua, o trombonista adora churrasco e a companhia de amigos. Adora Mahler, acha Beethoven meio devagar e morre de medo do Bolero de Ravel. Tem pelo menos um cachorro
em casa e sempre que pode coloca um glissando só pra "dar um toque especial".

Trompetista - Adora sair para tomar cerveja com os amigos. Chega sempre atrasado no ensaio, mas nunca ninguém percebe. Os churrascos são sempre na sua casa. Se o maestro não está presente, fica sempre tocando a nota mais aguda possível para se mostrar. Tem os lábios rachados e usa isso para paquerar. Está sempre andando pelos bastidores fazendo "prrrrrrrrrft" com seu bocal.

Soprano - Gorda e metida não são adjetivos educados para se caracterizar uma soprano. Elas são avantajadas fisicamente e temperamentais. Têm que ser o centro das atenções - no palco e fora do palco. São invejadas pelas contraltos e adoram isso. São amantes
excelentes, péssimas esposas. Se vestem com roupas chamativas, adoram chapéus. Preferem champagne ao vinho e não sabem ler partitura: afinal aprendem tudo com o "ouvido maravilhosos que Deus lhe deu". Andam sempre acompanhadas de seu pianista-acompanhador preferido, que chamam de "maestro".

Tenor - Bem apessoado, jovem, bonito, charmoso e gay. Anda sempre com roupas modernas e na moda. Tem várias amigas e quer sempre "viver o momento". Tenta sempre parecer alegre e de bem com a vida, mas, se está de mau humor, faz questão de anunciar para todo mundo. Não toma sorvete, porque tem que "preservar a voz", mas fala sempre alto para ser ouvido do outro lado do bar. Malha regularmente, vai ao cabeleireiro e
flerta com quem passar na frente.

Contralto - Morena e muito alta. Não é muito bonita, mas se veste bem. Não gosta de sopranos, mas sua "melhor amiga" é uma. Gosta muito de flores e usa um perfume forte, mas agradável. Meio desajeitada quando anda. Odeia saladas, mas está sempre cuidando
do peso.

Baixo - Alto, cabelo preto e parrudo. Ninguém sabe o que está se passando na cabeça de um baixo - se é que alguma coisa existe atrás daquele olhar perdido. Meio devagar, para falar a verdade. Quer sempre ajudar o próximo, mesmo que isso atrapalhe sua vida pessoal. Suas meias nunca combinam, mas adora fazer papel de "vilão bem vestido" nas óperas. Come de boca aberta.

Fagotista - Magro, cabelo encaracolado. É o típico sujeito normal. Curioso por natureza. Sempre simpático e atencioso. Também é muito misterioso: nunca ninguém foi à casa de um fagotista. Somente os outros sopros sabe o nome dele. Dedos longos e
mãos finas. Lembra Sherlock Holmes no jeito de andar.

Tubista - Sujeito acima do peso, loiro e com cabelo encaracolado. Pele oleosa e bochechas vermelhas, sua feito um porco quando toca. Ri de tudo, mas raramente entende uma piada. Gosta de comer bastante e não tem namorada.

Flautista - É o violinista das madeiras, mas não tão metido. É perfeccionista, mas sabe que o mundo não é perfeito. Adora Debussy e fica horas ouvindo suas proprias gravações. Enxerido, dá palpite até no dedilhado do trompista. Vive num mundo à parte
e cuida da flauta como se fosse sua filha. É o único que não acha o som do piccolo irritante.

Clarinetista - É um cara engracado. Veste-se bem, mas não é vaidoso. Pode ser loiro ou moreno. Toca com as sobrancelhas e é mais esperto do que inteligente. Adora ficar chupando a palheta enquanto não toca, mas, se desafina, joga a palheta fora. Não
agüenta mais tocar o início da Rapsody in Blue para os outros músicos atrás do palco.

Percussionista - Magro com bracos longos, o percurssionista se gaba de tocar "mais de 20 instrumentos diferentes" e "tirar música de qualquer lugar", mas, por alguma razão incompreensível, sempre entra na hora errada - "culpa da orquestra que está arrastando o tempo" ele diz. Toca bateria numa banda de garagem escondido e acha o Bolero de Ravel um saco, mas sempre fica nervoso antes de apresentá-lo. Nos ensaios é sempre o primeiro a ir para casa e nos concertos sempre o último e ainda fica resmungando por
ter que "desmontar" o "equipamento". Um cara legal que acha qualquer sinfonia clássica "cachê fácil" e jura que existe uma técnica especial de se tocar triângulo.

Trompista - Um cara discreto. Não fala muito. Tem trauma de falhar notas, por isso está sempre desmontando o instrumento para tirar a "água" durante o concerto. A parte do palco em volta da sua cadeira está sempre molhada. É sempre o último a afinar o
instrumento antes do maestro entrar e, de vez em quando, ainda toca um "Fazinho" durante os aplausos só para conferir. Está sempre olhando para o fagotista para saber a hora certa de entrar: afinal não consegue contar mais de 20 compassos em branco. Nunca reclama quando lhe chamam a atenção, mas é quase certo que faz gestos obcenos com a mão que está escondida no instrumento. Tem pesadelos antes de apresentações com
o concerto para piano de Tchaikowsky.

por Bernardo Scarambone