Contrapunctum

Este blog visa divulgar informações do campo da música de concerto (clássica ou erudita) e de outras artes e ciências de forma interativa, bem como expor idéias, opiniões, comentários e textos variados em áreas diversas.

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Name: Anderson Paiva
Location: São Paulo, SP, Brazil

Tenho 26 anos. Clarinetista e compositor amador. Sou evangélico (CCB), aprecio a música, a leitura, navegar na internet (fazer pesquisas e participar de fóruns). Gosto de conversar assuntos diversos, no campo das idéias. Tendência à reflexão e à introspecção. Predominantemente tranqüilo. Não tolero a falsidade e a arrogância. Prezo a humildade, a empatia e a lealdade. Sou um pouco desatento ao meio em que vivo, mas perspicaz na percepção das personalidades alheias. Conheço bem meu interior. Aprecio a discussão, no bom sentido; o debate de idéias. Incomodo-me com decisões de última hora, prefiro as coisas planejadas. Mas não sou organizado, nem metódico. Aliás, o oposto disto. E-MAIL: anton.stadler@gmail.com

Sunday, February 26, 2006

Enquanto há esperança, há dúvida

Enquanto há esperança, há dúvida.
Enquanto há dúvida, não há fé.
Enquanto há fé, há esperança.
Enquanto há esperança, há fé.
Enquanto há fé, não há dúvida.
Enquanto há dúvida, há esperança?
Enquanto há esperança, há dúvida.


Anderson Paiva - 26/02/2006

Thursday, February 23, 2006

Lendo obras do realismo brasileiro...

Terminei de ler hoje O Mulato, de Aluísio Azevedo, nessa excursão que estou fazendo pela literatura brasileira, começando pelo Realismo.

Estudei um pouco (o básico) do Realismo / Naturalismo, e, no ano passado, li As Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, de Machado de Assis. Li ainda O Cortiço, de Aluísio Azevedo. E, nesse ano, acabo de concluir esse verdadeiro retrato da sociedade maranhense, da época do autor, que é O Mulato. Pretendo amanhã iniciar a leitura de O Ateneu, de Raul Pompéia.

Depois, pretendo dar um tempo com o Realismo e observar as obras do Romantismo, começando com José de Alencar. Pretendo assim, aos poucos, ir conhecendo o básico dos períodos da literatura nrasileira, ora indo para frente, ora indo para trás, para depois me aventurar pela literatura universal, desde Homero, a Shakespeare, Cervantes, a Orwell, etc, sempre seguindo um rumo definido e orientado. Depois de todo esse básico, caberá repassar pelos principais momentos e períodos da literatura universal e brasileira, visitando outras obras que ficaram para trás, as menos conhecidas, e também chegando à literatura contemporânea, etc. Um longo caminho...

Sobre O Mulato, de Aluisio Azevedo: O autor pincela a paisagem tipicamente brasileira, caricaturizando, como sempre, os tipos sociais, satirizando a burguesia, o clero, denunciando os preconceitos sociais mórbidos, ressaltando, com os seus olhos de pintor, os aspcetos de modo aparentemente caricata, mas verdadeiro.

Percebo uma frieza e pessimismo em Aluízio Azevedo no desfecho de suas obras, e uma ironia, com que desmascara a sociedade. Elementos presentes também em Machado de Assis; neste porém, de forma menos escancarada, e mais sutil. Machado é o refinamento, a discrição e a sutileza psicológica. Aluísio Azevedo é a denúncia livre e aberta, o olhar para fora, a descrição ambiental pormenorizada.

Aluísio enfoca o coletivo, com um olhar de dentro para fora. Machado de Assis desvenda o interior, com um olhar de fora para dentro. Em Aluísio, os indivíduos se traem, sucumbindo ao meio, transformando-se no pepel inverso que representavam, pois são influenciados pelo meio em que vivem, e não possuem controle sobre o seu próprio destino, conforme a lei naturalista. Em Machado, a contradição do homem está sempre em confronto com o seu orgulho e vaidade, e os atos egoístias são justificados por numa compensação da consciência. O "abrir e fechar de janelas", mencionado em Memórias Póstumas.

Ambos autores, contemporâneos entre si, representantes máximos do Realismo brasileiro. Muito semelhantes. E muito diferentes.

Nos retoques finais de Machado de Assis (desfecho) sinto um pessimismo melancólico, irremediável e congelante. Nas pinceladas finais de Aluísio de Azevedo percebo uma ironia mórbida, caricata, quase ultrajante, que chega à beira do pitoresco.

Ambos lançam um olhar de crítica à sociedade. Percebe-se a dimensão dessa crítica no final da obra. E elas provocam, cada uma, um diferente efeito no leitor.

Em Machado de Assis, resignação. Em Aluísio Azevedo, revolta.

Venha ver o pôr-do-sol

Trazemos aqui este conto de Lygia Fagundes Telles. Um conto muito bem escrito, uma trama verdadeiramente bem elaborada. Vale a pena ler ou reler:


ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
- Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
- Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
- Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
- Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa. Tirou um cigarro. - Hem?!
- Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.
- Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
- Podia ter escolhido um outro lugar, não? – Abrandara a voz – E que é isso aí? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
- Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo – acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
- Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
- Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
- Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
- E você acha que eu iria?
- Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento –Você fez bem em vir.
- Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
- Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
- Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
- Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado – prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. – Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
- É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
- Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
- É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente – exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
- Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
- Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
- É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
- Ele é tão rico assim?
- Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
- Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
- Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como agüentei tanto, imagine um ano.
- É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
- Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
- Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim – Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
- Mais alguns passos...
- Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! – Olhou para atrás. – Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
- A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio – lamentou ele, impelindo-a para frente. – Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. – E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. – Enfim não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
- Esfriou, não? Vamos embora.
- Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
- Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico.
- Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
- Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
- E lá embaixo?
- Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. – A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
- Todas estas gavetas estão cheias?
- Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
- Vamos, Ricardo, vamos.
- Você está com medo?
- Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
- A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
- Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
- Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
- Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel – Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
- Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! – exclamou ela, subindo rapidamente a escada. – Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! – ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
- Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
- Boa noite, Raquel.
- Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
- Não, não...
Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
- Boa noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
- Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
- NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.

Lygia Fagundes Telles

Monday, February 20, 2006

O que é mais belo

"O que é mais belo do que o amor? A liberdade?"

Anderson Paiva - 20/02/2006

Cobrança

Direi: paixão oprime, amor liberta
E a outra, se é insegura, desleal,
Amor, calor, não fogo, é sinal
Da paz e liberdade que se oferta.

Amor é coração de porta aberta
Paixão é calabouço cardial,
Sou Dédalo e aflige-me o mal
De apego e de ilusão e vida incerta.

Se um dia, por tão vã insegurança
Provares que em prisão os planos somem
Verás: paixão é fogo, em sua lembrança;

Que em cinzas todos sonhos se consomem.
Direi, pois, do passado: és, cobrança,
Capaz de enlouquecer (perder) um homem.


Anderson Paiva - 18/02/06

Monday, February 13, 2006

Finalmente Osesp elege seu regente-assistente: Victor Hugo Toro

Osesp elege assistente chileno
ARTHUR NESTROVSKI
da Folha de S.Paulo

Depois do qüiproquó do ano passado, quando o Primeiro Concurso de Regência Orquestral da Osesp acabou sem nenhum vencedor, tudo o que se queria agora eram bons finalistas. E bons finalistas foi o que se viu no sábado, durante a final do Concurso que consagrou o chileno Victor Hugo Toro como novo regente-assistente da orquestra.

Ao longo da semana se apresentaram 12 candidatos, de cinco países, perante uma banca de cinco maestros --o titular da Osesp, John Neschling, mais os convidados Alun Francis (Inglaterra), Gabriel Chmura (Polônia), Yoram David (Israel) e Roberto Duarte (do Rio de Janeiro). Regeram peças conhecidas e uma desconhecida: um desafio para os semifinalistas, um maracatu stravinskiano de André Mehmari. Os membros da Osesp também tinham direito a voto, valendo a decisão da maioria; o resultado final --maestros mais orquestra-- foi unânime.

Já o público votou no argentino Christian Baldini, carismático jovem regente de 27 anos, doutorando em Cincinatti (EUA). Regeu de cor o primeiro movimento da "Primeira Sinfonia" de Brahms (1833-97), esbanjando musicalidade. Era o mais novo dos três que ficaram para a final; e deixa suspiros, decerto, entre as estantes do palco, tanto quanto nas fileiras da platéia --numerosa platéia para uma manhã chuvosa fora de temporada.

O ponto alto do outro finalista, o japonês Kodo Yamagishi (34 anos, assistente do Coro do Teatro São Carlos, em Lisboa), foi "Dumbarton Oaks", de Stravinsky (1882-1871), que ele regeu com incisiva geometria. Teve a virtude de mudar o estilo dos gestos para Brahms e Schumann. Só ficou faltando, talvez, aquela carga de agressividade que intensifica a presença física de um maestro no pódio.

Dos três aquele que parecia mais à vontade na situação era mesmo o chileno --e "parecer", no caso, já é parte da arte. A batuta podia estar tremendo, mas Toro comandava a Osesp com naturalidade, certo do que queria e querendo a coisa certa, a julgar pelos olhares do júri. Musicalmente, foi menos original do que Baldini; mas o cargo não exige originalidade. Pede, sim, desenvoltura e prontidão (o assistente acompanha todos os ensaios; só rege em caso de urgência).

Desde o concurso passado que Victor Hugo Toro, de 30 anos, se preparava para esse. Professor-assistente de regência na Universidade do Chile, passou muito tempo em São Paulo e já é familiar à orquestra. Em fins de 2005, assumiu o posto de regente do Coro Juvenil da Osesp. Ninguém espera dele, por ora, mais do que ele mesmo espera: uma chance de crescer à frente da melhor orquestra da América Latina. O que virá depois será uma outra história, por enquanto em aberto.

Fonte: Folha de São Paulo

P.S.: O prêmio Osesp prevê ao vencedor contrato de dois anos.

Friday, February 10, 2006

Realidade

Para mim, viver é, acima de tudo, sentir. Sentimos pelos sentidos, mas não sabemos utilizá-los. Como você sente sua boca? Seu ventre, seu tórax e seus pés? Pois eu digo que, para mim, esse é o segredo: não cheirar, tocar, degustar, ver, ouvir, pressentir. É sentir naturalmente, desligando-se do "eu", unindo=se, sucessivamente, à natureza, depois, ao planeta, ao sistema solar, via láctea, ... outras galáxias e, por fim, a todo o universo. E quando por fim o fizer isso será pouco porque ainda haverá muito o que sentir. Os outros universos, multiuniversos, outras pessoas, outros mundos, dimensões, porque planeta não é o mesmo que mundo. O planeta é físico e o mundo, abstrato, assim como a mente é abstrata e o cérebro, físico. O espaço físico e o abstrato são separados ou unem-se em um todo indefinível? Não responderei, mas acrescentarei que o seu "eu" não é físico, mas você pode sentir seu corpo como se fosse físico, ou pode sentir toda a essência cósmica como se não fosse. Isso faz a diferença. Existem apenas cinco sentidos? Esta concepção é principal fator para pensarmos, ou melhor, sentirmos errados. Porque sentir pe mais importante do que pensar. Pensar, no modo tipicamente vulgar, é divagar com palavras, como se estivesse falando. Quando você lê, você pensa no modo primário (vulgar, banal). Quando lê, as palavras soam na sua mente como vozes. e você está pensando. Mas o verdadeiro pensamento, o verdadeiro sentir não é associado a palavras, nem a coisa nenhuma. Ele é livre. É por isso que estamos presos, pois o inglês pensa em inglês, o alemão pensa em alemão, o japonês pensa em japonês. Neste sentido nosso pensamento é mais falho do que o dos outros animais, uma vez que esses relacionam-se com a natureza de modo a harmonizar-se e integrar-se com ela, como se fizessem parte de um todo. Na realidade, o fazem. Quando você sentir o universo, você será o universo. Quando sentir outros mundos, e dimensões e multiuniversos, será tudo isto. Os mundos imaginários tornam-se reais, porque não existe verdadeiro limite entre o real e o não real, uma vez que o real não é só o concreto. Os sentimentos não são físicos, mas existem, assim como os pensamentos. Então real é em que você acredita. O real superio jamais poderemos conhecer. Não vemos o ultravioleta; as abelhas o vêem. No entanto, as abelhas nâo têm acesso a muitas cores que nós, humanos, temos. Cada um vê ao seu modo e ninguém pode definir como é a realidade em si. As cobras sentem diferentemente dos humanos, que sentem diferentemente dos morcegos. O objeto não existe sem o observador, uma vez definida a existência nesses termos. Para mim a cadeira é tão real como o pensamento de sentar, ou a qualidade de ela ser bonita ou fiea, ou ainda o ato bondoso de eu deixá-la disponível aos idosos ou a ação maldosa de eu destrui-la. Então real não é o que você vê, ouve, etc. É o que você 'sente'. Mas não sentir no sentido de tato. Sentir no sentido mais profundo, e puro: o sentido de integrar-se ao universo. Integrar-se ao Todo. Todos os objetos contruídos pelos homens, que vemos, um dia foram um desenho, um papel, uma imaginação. Algo impossível, algo louco. Algo imaginário. Eu diria que a razão está a um passo da sabedoria, e a sabedoria está a um passo da loucura. E a loucura está a um passo da razão. Ou seja, é um círculo. Não dá para dizer onde é o início e onde é o fim. É um dodo, indefinido. No dia em que quiser compreender o Todo, desligue-se dos sentidos e sinta realmente. Lembre-se de que a audição é a visão para o cego, e a visão é a audição para o surdo. Se um dia você tornasse-se cego e surdo, como sentiria? Sobrariam o olfato, o paladar e o tato e você estaria perdido em um undo, praticamente 'vendo' e 'ouvindo' com o tato. Mas se aprendesse que não existem só cinco sentidos e que o mundo como o vemos é banalizado, sua existência não seria depressiva: seria altamente formada por base nas idéias. Seria experimental. Mas e se você, hipoteticamente, por alguma razão ou causa extraordinária, digamos um experimento científico, perdesse também esses três últimos sentidos, permanecendo, entretanto, a razão, os pensamentos e a consciência? O que existiria? O que deixaria de ser real? Estaria em uma espécie de coma? Estaria vegetando? Diria que não. Está claro, para mim, que os animais pensam, ao seu modo, mas as plantas não. Pelo menos não na concepção que estamos mais ou menos familiarizados. Sua complexidade cerebral continuaria muito maior do que a de outros animais, e você provavelmente seria bombardeado por imanges oníricas, sonhando dormindo e acordado. A sua vida seria um eterno sonho, comparada com a nossa vida, e supondo-se que que suas faculdades mentais permanecessem intactas, embora você não sentisse o corpo (suponha que seu corpo estivesse constantemente alimentado por uma espécie de soro, nutrindo o cérebro). Obviamente sua posição seria diferente de quem tivesse nascido assim, do mesmo modo que o cego e o surdo de nascença vêem o mundo totalmente diferente de quem perdeu um desses sentidos numa fase posterior. Se Beethoven tivesse nascido surdo, obviamente jamais teria sido compositor, e não saberia o que é som, por mais que lhe pudessem, cientificamente, explicar. Mas uma vez que Beehthoven teve a oportunidade de, em uma parte de sua vida, 'ouvir', depois de surdo continuou compondo, crescendo de maneira inacreditável sua capacidade, uma vez que ouvia os sons na sua pura abstração, uma experiência sem dúvida incomum. Ele teve um instinto auto-destrutivo, mas uma vez que recuperou-se, como ele mesmo escreveu, en bine da arte, prosseguiu e atingiu um nível incompreensível, e a partir de então sua música não só estava a frente de seu tempo, mas permanece, ainda hoje muito à frente de nosso tempo. Temos a tendência de desprezar e considerar 'ruim' tudo o que não compreendemos, mas os sensíveis, mesmo não compreendendo de Beethoven as suas últimas composições, conseguiram pelo menos enxergar que essas estavam num nível 'sobre-humano', e até hoje assim são consideradas. Suas expressões jamais foram igualadas por nenhuma obra de nenhum outro compositor, quer sejam do passado, quer sejam do futuro. Lembre-se de que depois de surdo Beethoven escreveu a maior sinfonia de todos os tempos, quartetos de cordas que simplesmente ultrapassam a nossa compreensão e que diversos compositores de todas as partes, inclusive muitos deles ainda hoje muito famosos, procuravam-no para opinar sobre suas partituras, dar-lhes um parecer. Muitos consideram-no hoje o maior compositor de todos os tempos, e ele foi o que sem súvida exerceu maior influência nos posteriores. E pensar que muitos considerariam sua isolada existência limitada. Voltando agora à nossa hipotética situação em que vcoê perdeu todos os sentidos, ou pelo menos todos os cinco que aprendeu na escola, qual seria sua posição diante do universo? Sua vida perderia sentido? Talvez. Preferiria morrer? Talvez. Mas se você aprendesse, a partir de então, a realmente enxergar, a realmente sentir, você estaria dando um passo ao infinito, integrando-se com tudo e com todos. No seu mundo interior, extrapolaria os limites do mundo exterior, ligando-se à essência de tudo, dos universos e multiuniversos, os mundos imaginários e inimaginários, dimensões e pensamentos, enfim, ao Todo, e quando pareceria não ser nada, seria tudo. Em que poderia influenciar? Não responderei, apenas observarei que para saber isto seria preciso conhecer até onde vão as possibilidades da mente humana, suas forças psíquicas, mentais espirituais; depende muito da sua crença. Mas de um modo ou de outro, enquanto muitos imaginam um homem deitado na cama de um hospital mantido por uma ciência futurista, um morto-vivo, em coma, vegetando, eu imaginaria um homem que desprendeu-se das associações com o pensamento e aprendeu a sentir, tendo sua mente viva e sua memória intacta, mas a partir de então, não só as memórias do mundo anterior estariam presentes, antes um novo mundo seria criado, uma nova dimensão espiritual, abstrata, mental, psíquica, onde tudo aconteceria de maneira tão ou mais real do que no mundo físico, com outros 'seres' em que o corpo não é mais importante, mas as idéias. Esse homem, esse ser não faria acontecer: ele aconteceria. Sua mente seria um universo e as pessoas dentro dele seriam parte de seus pensamentos regidos por ele, onde tudo o que ele quisesse ocorreria. Ele seria um ente supremo, ligado a essência do universo e ao Todo. Ele seria o Todo. Ele seria um deus.

Anderson Paiva (het. John McCriffer)

Saturday, February 04, 2006

Osesp abre temporada 2006 com Réquiem de Verdi

A Osesp irá abrir a temporarada 2006 em grande estilo: com o Requiem de Verdi.

Esse é um dos principais requiems da História da Música, ao lado do inesquecível requiem de Mozart, do classicismo, e também os grandes do romantismo, de Brahms, Berlioz e Fauré, sem esquecer o de Benjamim Britten, do modernismo.

Podemos ainda citar o de Liszt e o de Bruckner, do romantismo; de J. Michael Haydn, Salieri, F. J. Gossec, e do brasileiro Pde. José Maurício, do classicismo; P. F. Cavalli, G. B. Bassani , A. Cadara, J. B. Lully , A. Compra, Jomelli e Zwierzchovski, do barroco; e Cristóbal Morales, Pedro Guerreiro, O. di Lasso, Victória, Palestrina e L. Vecch, do renascentismo. Se você aprecia esse gênero anote esses nomes.

O requiem de Verdi é uma missa dramática, com passagens fortes e marcantes, como o Dies Irae. Verdi não conseguiu fugir do próprio estilo (e nem poderia!); este requiem é bastante "operístico", e é tido como mais dramático do que litúrgico, o que é motivo de crítica por parte de alguns, mas a verdade é que essa obra já entrou para a história como uma das maiores manifestações artísticas da música ocidental.

Verdi, inquitado por muitas dúvidas acerca da religiosidade, não era, exatamente um católico ortodoxo. Aproximava-se mais de um cristão agnóstico.

Brahms considerava que "só um gênio poderia ter escrito tal obra". O grande maestro Hans von Bulow, porém, chamou-lhe "uma ópera em roupas eclesiásticas" e Wagner declarou: "é melhor nada dizer...".

Sobre seu requiem, Hanslick escreveu. "A devoção religiosa também varia nas suas formas de expressão, conforme os países e o seu tempo. O que parece ser tão apaixonado, tão sensual no Requiem de Verdi resulta dos hábitos do seu povo, e os italianos tem todo o direito de perguntar se não lhes é permitido falar com Deus na sua própria língua!"

A Osesp apresentará essa magnífica obra no próximo mês, o de março, nos dias 8 e 10 (quarta e sexta-feita), às 21h00, e dia 11 (sábado), às 16h30.

Hasmik Papian, soprano
Mzia Nioradze, mezzo-soprano
Zoran Todorovich, tenor
Giacomo Prestia, baixo-barítono

Coro da Fundação Príncipe de Astúrias
Coro da Osesp
John Neschling regente
Sala São Paulo


Não perca! Compre já o seu ingresso e garanta o seu lugar (antes que se esgotem).

Os preços variam de R$ 25,00 a R$ 80,00, conforme o local da platéia. Os ingressos são vendidos com 60 dias de antecedência, a partir de 8 de fevereiro. Para mais informações, acesse http://www.osesp.art.br, ou ligue para 11 3337-5414.

Thursday, February 02, 2006

Alemães confirmam que décimo planeta passa Plutão em tamanho

Hoje, a pergunta mais importante sobre o tal "décimo planeta" do Sistema Solar, descoberto no ano passado, é: que tamanho ele tem? A resposta começa a chegar, mas não sem controvérsias.
A pergunta é crucial porque foi justamente a estimativa inicial de que ele fosse maior do que Plutão, o nono e menor dos planetas reconhecidos pela IAU (União Astronômica Internacional), que o colocou como forte candidato ao cargo de décimo planeta.
Hoje saiu o primeiro estudo abordando a questão. O título do artigo, na revista "Nature", é sucinto: "O objeto transnetuniano UB313 é maior que Plutão".
"Objeto transnetuniano UB313" é uma forma complicada de se referir ao "décimo planeta", cujo nome técnico é 2003 UB313 e está além da órbita de Netuno.
O estudo é produto do trabalho do grupo de Frank Bertoldi, da Universidade de Bonn, na Alemanha. E ninguém pense que foi fácil tirar as medidas desse astro.
O jeito mais fácil de calcular o tamanho de um objeto distante é conseguir ampliá-lo a ponto de enxergá-lo como um disco e daí extrapolar o seu diâmetro.
No entanto, ninguém conseguiu isso ainda com o UB313. O jeito que Bertoldi e seus colegas deram foi estimar o tamanho a partir do brilho -cálculo perigoso e cheio de incertezas.
Ao final das contas, chegaram à conclusão de que o objeto tem cerca de 3.000 km, com uma margem de erro de 400 km. Com esse tamanho, mesmo na pior das hipóteses ele bate Plutão, cujo diâmetro é calculado em 2.300 km.
O estudo ganhou o aval de Michael Brown, cientista do Instituto de Tecnologia da Califórnia que liderou a descoberta do 2003 UB313, no ano passado.
"Eu acho que o artigo está ótimo. Trabalhei com esses caras no passado e até nos estágios iniciais desse estudo", diz.
Ainda assim, Brown vê espaço para melhorias. "As incertezas são grandes -2.600 a 3.400 km é uma faixa muito grande, mas pelo menos é um bom começo!"
Quem promete colocar o próximo tijolo na parede do conjunto de conhecimentos sobre o "décimo planeta" é o próprio Brown. Ele está neste momento analisando imagens coletadas com o Telescópio Espacial Hubble, na tentativa de observar o UB313 como um disco e estimar seu diâmetro.
E as coisas estremeceram anteontem, com um relato divulgado on-line pelo site Sciencenow (sciencenow.sciencemag.org), serviço de notícias da revista "Science". Com base numa palestra de Brown, o site informava que, pelas imagens do Hubble, o objeto seria apenas marginalmente maior que Plutão (coisa de 1%), contrariando os resultados de Bertoldi e companhia.
O próprio Brown, entretanto, repudiou o relato. À Folha ele disse: "Eu não sei qual vai ser a resposta final do nosso estudo, mas eu garanto que não será o que diz esse relato. Espero que terminemos a análise do Hubble em um mês, quando poderei falar mais."

Fonte: Folha de São Paulo, por Salvador Nogueira - 02 de fevereiro

Wednesday, February 01, 2006

Maestro Daniel Barenboim é hospitalizado

dia 27: O pianista e diretor de orquestra argentino-israelense Daniel Barenboim foi hospitalizado nesta sexta-feira à noite, pouco antes do início de um concerto em comemoração do 250º aniversário do nascimento de Wolfgang-Amadeus Mozart que devia dirigir na Staatsoper de Berlim, anunciou o diretor desta ópera.

Barenboim, de 63 anos, foi levado para uma clínica de Berlim, faltando meia hora para o começo da apresentação, que deve ser retransmitida para 23 países, declarou Peter Mussbach ao jornal "Berliner Morgenpost".

"Não sabemos o que está acontecendo. Estamos preocupados e esperamos que sua vida não corra perigo", disse Mussbach.

O concerto da Staatsoper aconteceu sob a batuta do assistente de Barenboim: Ulien Salemkur.

Daniel Barenboim ganhou o prêmio musical Ernst von Siemens 2006, um dos mais prestigiosos do mundo, dotado de 150.000 euros (180.000 dólares), anunciou o júri nesta quinta-feira.

Nascido em Buenos Aires em uma família de imigrantes russos, Barenboim anunciou que empregará dois terços do prêmio (100.000 euros, 120.000 dólares) nas obras de remodelação da Staatsoper, situada na avenida Unter den Linden, que se encontrava na ex-República Democrática Alemã.


dia 28: O maestro argentino-israelense Daniel Barenboim, hospitalizado na sexta-feira à noite em Berlim, está melhor, mas permanecerá no centro médico até nova ordem, informou neste sábado uma porta-voz da ópera Staatsoper de Berlim.

A vida do maestro não corre perigo, explicou a mesma fonte, que não divulgou detalhes sobre a doença de Barenboim ou sobre a provável duração da internação.

Daniel Barenboim foi hospitalizado na noite de sexta-feira meia hora antes do concerto que dirigira na Staatsoper em comemoração ao aniversário de 250 anos do nascimento de Mozart. O concerto, transmitido ao vivo para 23 países, foi celebrado sob a batuta de seu assistente, Ulien Salemkour.

dia 29: O maestro argentino-israelense Daniel Barenboim, hospitalizado na sexta-feira à noite em Berlim, recebeu alta neste domingo, informou uma porta-voz do centro médico, sem dar detalhes.

Daniel Barenboim foi internado na noite de sexta-feira, meia hora antes do concerto que dirigira na Staatsoper em comemoração aos 250 anos do nascimento de Mozart. O concerto, transmitido ao vivo para 23 países, foi celebrado sob a batuta de seu assistente, Ulien Salemkour.

Fonte: http://musica.terra.com.br/

Técnica ou inspiração? / Cantiga de Esponsais

Vocês já leram Cantiga de Esponsais, esse magnífico conto de Machado de Assis?

Trazemos aqui esse conto, que nos faz refletir e toca, de maneira melancólica, na questão da inspiração, algo necessário a todo artista (assim como a técnica). Peço que leiam-no, logo abaixo, após as seguintes considerações:

Técnica ou inspiração?

O que, em arte, é mais importante: técnica ou inspiração?

Ambos.

Técnica é algo não inato, que adquire-se com árduo esforço. Uns com mais facilidade, outros com menos.
Inspiração é o poder criativo, que flui naturalmente na área em que se possui mais facilidade, tendência e pré-disposição de aprendizado, o que chamamos de "dom" ou "talento". E devemos reconhecer as nossas potencialidades, o seu campo de atuação e também a sua área específica. Assim como existem concertistas e maestros, cardiologistas e psiquiatras, cada pessoa deve encontrar a sua área específica dentro de um determinado campo, seja música ou medicina. Por exemplo: ser um bom compositor não implica ser um bom musicólogo; ser um bom escritor de prosa não implica, necessariamente, ser um bom poeta, etc. Deve-se descobrir a área de talento (e, conseqüentemente, de inspiração) para, nessa área (a correta) poder desenvolver (fluidamente) a técnica. E podem existir várias áreas de vocação, mas deve-se descobrir quais, exatamente, são essas.

Beethoven disse: "O gênio é composto de 2% de talento e de 98% de perseverante aplicação".

Sabemos também que o grande e talentoso Wolfgang Amadeus Mozart, que encantava a todos com o seu talento nato (facilidade de aprendizado), teve a sorte de ser filho de Leopold, importante músico, o principal violista de sua região, e autor de importante método, na época, para o seu instrumento.

Esse mesmo menino-prodígio Mozart, a quem todos consideram genial (e ele o é), e muitos consideram-no também um auto-didata, foi quem "deixou um caderno de estudos de contraponto e foi com o Padre Martini, grande contrapontista italiano de sua época, que aperfeiçoou sua técnica, que o próprio Martini considerava '!incipiente'!", como bem nos lembra o nosso compositor Marlos Nobre de Almeida.

"Beetthoven disse: 'O que é a técnica, o conhecimento, frente à imaginação criadora? De que vale o pobre violino frente à invenção avassaladora do gênio'? Beethoven 'dixit'. Ora, entretanto o próprio Beethoven nada seria se não tivesse feito seus estudos da 'técnica' com tudo que pôde absorver em sua época", afirma ainda Marlos Nobre. E pondera: "Boulez afirma constantemente que despreza o auto-didata por desconhecimento, e admira o auto-didata por decisão pessoal. E cita como exemplos do primeiro tipo um compositor como Satie, carente de técnica, auto-didata por desconhecê-la, assim como Varèse, auto-didata por desprezo da técnica adquirida; e louva um Debussy, que não foi exatamente um auto-didata, mas que 'aprendeu' primeiro e depois tratou de 'esquecer'. É nesta dualidade constante que trafega o verdadeiro criador. É impossível você transgredir sem antes conhecer, senão você vai transgredir o que, exatamente? Como reagir contra, se você sequer conhecer o que pretende refutar?".

O mestre brasileiro lembra-nos também de que Bach aprendeu sobretudo copiando as obras dos seus antepassados e que, por outro lado, "não adianta o conhecimento técnico, de nada adianta a técnica adquirida, de nada valem teorias, nem ciência, se não houver aquilo impalpável, aquilo absolutamente indefinível, que se chama o verdadeiro talento criador do compositor".

Tratando de arte, vamos ao conto do nosso genial Machado de Assis que, em se tratando de métier e de inspiração, possuia ambos, de sobra. Peço que leiam (ou releiam) atentamente esse primoroso conto, e reflitam:


Cantiga de Esponsais

Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. "Quem rege a missa é mestre Romão" - equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: "Entra em cena o ator João Caetano"; - ou então: "O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias." Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. Não que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.

- Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha.

- Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jucundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele...

Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor. Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas. Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única de tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: - a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas
tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começado três dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como ele a ela. Três dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair. Como um
pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.

- Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

- Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

- Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica...

O boticário mandou alguma cousa, que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que ele padecia do coração: - moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico.

- Para quê? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança, apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, - outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final.

- "Está acabado", pensava ele.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras:

- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...

Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas. E então teve uma idéia singular: - rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

- Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá....

- Lá, lá, lá...

Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.

- Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela para o lado dos casadinhos. Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se
miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

- Lá... lá... lá...

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.

Excesso

Em muitas das vezes que nos sentimos "deslocados" ou com uma ligeira sensação de que nos falta algo, não é exatamente a falta de algo que causa o incômodo, mas o excesso.

Excesso de idéias, de informações, de pensamentos e de tempo parasisado em uma só maneira de pensar, e de enxergar o mundo.

Do mesmo modo que, após algum tempo, são essenciais a mudança de cenário de um teatro, de ângulo da câmara em um filme, de tonalidade em uma música ou da posição dos móveis em uma casa, também ocasionalmente necessitamos de mudanças e de um "arejamento mental".

Caso isso não ocorra sempre haverá a sensação de "falta de algo", causada por excesso de preocupações acumuladas, de idéias fixas e de convicções imóveis, que produzem uma indolente sensação de desconforto e, ás vezes, também uma certa e quase imperceptível melancolia; lembrança de tempos em que a mente experimentava uma diferente forma de sentir. Quando, casualmente, um pouquinho dessa antiga sensação retorna, percebe-se quantos valores essenciais nos escapam, com o tempo.

Às vezes sentimos saudade do passado, ou mais exatamente, saudade de como nos sentíamos no passado. Isso é acúmulo de novos valores e perspectivas. Pede-se, às vezes, uma forma menos linear (isolada) e mais cíclica (interativa) de mudança de estágios de percepção e pensamento.