Concerto para Oboé e orquestra de Marco Aurélio YanoGostaria de escrever sobre o impacto que teve em mim esta obra deste compositor brasileiro, falecido em 1991 com apenas 27 anos de idade. Câncer no cérebro.
Enquanto o compositor se esvaía, escrevia essa peça para o oboísta Alex Klein (um dos grandes da atualidade). O compositor chegou a terminar o concerto, mas não o editou - a peça ainda estava nos manuscritos, e demorou para ser publicada. Klein cuidou dos "retoques" finais, embora a obra já estivesse pronta, e foi o responsável pela edição da mesma.
Essa obra, uma das mais difíceis para o instrumento, feita "sob medida para Alex Klein" - conforme disse Robert Mincsuk -, ganhou emoção toda especial pelo caráter póstumo, de sofrimento, e também de desafio e emoção, envolvendo Klein e o compositor, na noite de quinta-feira, dia de sua estréia no Brasil (após ser apresentada no exterior), 7 de outubro de 2004, na Sala São Paulo, em que os familiares e amigos do compositor estavam presentes, e eu também ali estava e prestes a assistir uma apresentação com grande orquestra pela primeira vez, mas sem esperar pela emoção que viria a seguir.
"Marco Aurélio, embora nunca tenha escrito nenhuma biografia, vocês verão que o primeiro movimento deste concerto ['In Memorian'] é extremamente auto-biográfico. (...) Marco Aurélio foi, também, influenciado por esta maravilhosa música de Hollywood (segundo movimento)".
Bem, depois dos comentários de Mincsuk, fiquei atento, mais do que nunca, ao início do concerto, disposto a não perder um segundo sequer. Percebera que teria diante de mim algo raro. Um momento especial.
O concerto do então morto Marcos Aurélio Yano ganhou vida nas mãos de Alex Klein. Mas, antes, "terrível" foi a introdução da orquestra. Terrível; é a palavra.
Primeiro Movimento - "In Memorian"Diante dos primeiros movimentos da batuta do maestro Mincsuk... tensão nos acordes das cordas graves. O prenúncio de algo terrível, algo de terror. Era a morte que espreitava e assombrava a mente do nosso compositor brasileiro Yano. Com uma orquestração densa, batidas, pulsações assustadoras, crescia, como uma fuga (não no sentido musical), um grito desesperado, e, de repente...
Entra o lindo solo de Alex Klein, penetrando a orquestra com uma nota do registro agudo, e a a agitação de outrora, de poucos segundos atrás, transforma-se em movimento lento, em que ouve-se somente o oboé, e em que o terror cede lugar ao mistério.
O solo progride e começa o inevitável diálogo com a orquestra. Timbres estranhos, não convencionais, por parte de algum instrumento grave da orquestra, que responde, nervosamente, ao oboé. A orquestração vai tornando-se complexa, até explodir com toda a orquestra, em que começa a luta entre esta e o solista.
Aqui inicia-se a seqüência de notas velocíssimas, em que o instrumento é levado às últimas conseqüências, algo que eu nunca tinha visto, nem imaginado. Identificar as notas? Como? Impossível! São muitas notas por segundo, em que o solista desenvolve um nervoso recitativo, no movimento que adota como base a linguagem serial (pormenores que descobri posteriormente, após pesquisa). Nada de tonal, nem harmonioso: somente puro virtuosismo e excelente técnica do solista, orquestração muito bem elaborada. Um momento em que não pude acompanhar exatamente as notas, em tempo real, mas que me assombrava pela capacidade de produzir em mim algo que, até então, nunca tinha sentido nem vivenciado.
Com arpejos, efeitos multifônicos, microtons, tudo isto, que causa espanto e estranheza, com sons "estranhos", que até então nunca tinha ouvido (depois descobri tratarem-se de microtons e multifônicos), Alex Klein transcedia os limites do instrumento, e vencia, uma a uma, as barreiras impostas pelo compositor. Sequências de notas impossíveis, algo indescritível, mas que acaba com uma nota super-aguda do oboé, que Alex que segura enquanto a orquestra segue em seu diálogo. Depois, cessa a orquestra, continua Alex Klein. Sustenta a nota por tempo demasiado, com uma afinação perfeita. Atinge o impossível. Que perfeito domínio do instrumento, ao sustentar uma nota dificílima e aguda, por tempo demasiado! Primorosa respiração circular!
Cessa o primeiro movimento.
Depois de algum silêncio, espanto, suspiros da platéia, diante de tanto heroísmo hérculeo do solista, e de todo o êxtase causado pela interpretação do regente e da orquestra, do primeiro movimento, "In Memorian", desta transcedental obra do talentoso compositor, cessa a "autobiografia". Inicia-se o segundo movimento.
Segundo Movimento - "Seresta"Hollywoodiano...
Inicia-se com o oboé esboçando algo que tende ao extremamente belo. Sente-se logo nas primeiras notas do solitário oboé, a beleza da melodia, que virá a seguir. É o inicio desta cantinela melodiosa, pela qual Yano iniciou a composição.
É quando entram as cordas. Um dos mais belos momentos por mim vivenciados, de beleza indiscritível. Agora a música é tonal, e o que há é pura emoção. Oboé e orquestra dialogam harmoniosamente.
Ainda me lembro das lindas passagens da trompa, do lindo timbre e afinação impecável do oboé, dos inesquecíveis acordes das cordas.
Apesar do clima melodioso do movimento lento, há passagens dificílimas de serem executadas perfeitamente; cromatismos, cadências com variações da melodia, e com execesso de escalas, saltos, trilos, ornamentos.
Não tenho muito o que falar ou como descrever este movimento. Apenas me lembro de que a sensação de estar ali, presente, foi inefável e inesquecível, e que isto tudo não se pode traduzir em palavras.
Terceiro (e último) Movimento - "Frevo"Depois da emoção romântica e melodiosa do segundo movimento, o terceiro é um frevo de melodia simples e alegre, e que parece inocente, ingênuo, mas que vai se desenvolvendo e tornando-se, gradativamente, mais denso e complexo. Aqui há contrastes rítmicos, e o solista executa com perfeição as complicadas cadências, que são sempre variações em torno do tema principal. Repentinamente todo este impulso ritmico (a peça é predominante em 7/8) é interrompido por um trio, que é uma canção triste, e inicia-se em uma belíssima melodia na trompa. Melodia esta que equipara-se à do segundo movimento, em estética e beleza, além de emoção profunda. Depois de a trompa ter enunciado o tema lento e maravilhoso, que é um dos momentos mais especiais da obra, o oboé retorna, e retorna o tema, até atingir o ápice, em notas agudíssimas, que depois serão repetidas pelas cordas, em que o oboé acompanha alguns graus abaixo, em dueto. Momento curto e infinito, ao mesmo tempo.
Impressionantes são as variações que aparecem a todo instante, seja nas cadências, seja no desenvolvimento dos temas, de forma fragmentada, por parte da orquestra. Tudo isto pude perceber não imediatamente, pois no dia, na ocasião da primeira audição, eu estava em êxtase, em deleite, e apreciava a obra em toda a emoção íntima, e ouvindo-a pela primeira vez, não poderia perceber as sutilezas musicais que esta continha, o que fui perceber depois, e já lhes conto como.
As variações, sobre o início alegre do frevo, por parte da orquestra, interrompem o trio melancólico e o retorno do tema inicial é agora denso, tenso, com variações orquestrais. Depois desta parte dialética, que é brilhante do ponto de vista da composição propriamente dita, uma surpresa: o tema triste, que é o trio deste terceiro movimento, retorna, agora, com os metais, que lenta e solenemente o expõem, até explodir (a orquestra) em uma triunfal coda final. Então a coda, finalmente, surge com ALEGRIA, paradoxalmente, e o terror fúnebre inicial é, enfim, esquecido e cessado. Nada melhor do que as palavras de Lauro Machado Coelho, do Estadão, para descrever este último momento: "Ao retornar, a seção rápida conduz a uma coda em tom de hino, surpreendente pois, superando o medo da morte que Yano devia sentir, ela é uma luminosa celebração da vida. Talento evidente que não pôde, infelizmente, desenvolver-se, Yano nos legou,
per aspera ad astra, um aceno de adeus que é uma forma linda de permanecer conosco".
Assim finda-se o momento especial, desta obra que é, ao mesmo tempo, original e com influências de Piazzolla, Bernstein, Victor Young, Miklós Rózsa, e de alguns autores brasileiros. O público aplaudiu de pé o solista e a orquestra, por muitos minutos e a parte lenta do terceiro movimento, emocionante - repito sem cansar - foi represida por Alex Klein, também em homenagem aos pais do falecido compositor, que estavam presentes.
ComentáriosO texto é longo, mas é excelente oportunidade para eu descrever com palavras, como for possível, este momento que foi um dos mais belos da minha vida e, com certeza, foi também um instante mágico para muitas outras pessoas que estavam ali presentes.
Esta obra já tinha sido executada lá fora, e no Brasil foi a estréia, quando pais, amigos e familiares do compositor Marco Aurélio Yano estavam presentes. Esses encontrei, depois, no camarim de Alex Klein, quando fui pegar um autógrafo, embora já fosse tarde da noite. Pareceu-me que, ali no camarim, eu era o único que não era "de casa". Todos elogiavam a brilhante execução de Alex, e este dizia: "Eu tinha que trazer esta maravilha para vocês [referindo-se à composição]". Também comentou, em uma espécie de confidência, que o compositor 'complicou', realmente, 'as coisas para o lado dele', com aquela obra - disse-o com outras palavras, das quais não me lembro, comprimindo os lábios, com uma expressão de quem reconhece que um colega se foi, mas deixou uma grande tarefa para ele concluir. Alex também confessou que, antes do concerto, teve que controlar a emoção, antes de estrear a obra, aqui.
Amigos, esta noite foi um dos momentos mais extasiantes que pude vivenciar, e juro-lhes que sai de lá como quem anda nas nuvens. Uma sensação estranha, penetrante, ficava dentro de mim; melancolia, algo que tem a ver com a emoção profunda da música que o compositor fazia especialmente para o nosso oboísta, e morria, e sabia que estava indo enquanto escrevia essa obra, que possui, com certeza, um conteúdo emocional muito forte. Traduzia uma vida, uma vida que estava indo, mas que ainda permanece, por meio desta obra.
A peça não é só emocionante; é uma peça muito bem escrita, do ponto de vista da composição, do aspecto musical. Explora todos os limites do oboé, sendo um dos concertos mais difíceis já feitos para o instrumento, e nem por isto deixa de ser belo. Arte que une ciência e beleza, sem que uma venha a atrapalhar a outra.
Esta obra, embora tenha influências, não é pastiche: é profundamente original. Muitos confundem e não conseguem compreender o valor desta jóia de raro valor, que é esta obra de autor brasileiro. Recomendo a todos que tentem adquiri-la; É MÚSICA DE ALTÍSSIMO NÍVEL E ALTÍSSIMA QUALIDADE.
A obra me impressionou tanto que resolvi assisti-la novamente, na segunda apresentação, no sábado, á tarde. O "clima" era outro: a obra, apresentada durante o dia, e o oboísta vestia uma camiseta branca esporte, ao invés do rigoroso traje da apresentação da noite de gala, na quinta-feira. O mesmo programa, a mesma qualidade musical. Mas a sensação foi diferente. Apreciei, desta vez, a música de um modo mais frio e direto, e pude apreciar, mais uma vez, música de altíssimo nível e qualidade. Mas nunca será esquecida a sensação da primeira apresentação, de quinta-feira, a anterior.
Depois de tudo isto, passaram-se dias, meses, e não me esqueci da apresentação. Jurei que iria adquirir o CD, por mais difícil que fosse, não importasse o tempo que passasse.
Há não muito tempo atrás, comecei a procurar este CD na internet. Encontrei um CD duplo, com a obra, em um site europeu. Informei-me sobre o procedimento de compra - nunca fui dado a comprar produtos pela internet - e pareceu-me um pouco complexo, pois iria ficar muito caro e não possuo cartão de crédito.
Depois dessas tentativas, algo aconteceu, e que foi uma grata surpresa: um colega meu, que é oboísta, quando fui procurá-lo, disse-me que possuia a obra. Fez-me o favor de gravar e pude, depois de tanto tempo, apreciar novamente esta maravilha.
Hoje o nosso Alex Klein não pode mais apresentar-se como outrora, por causa de uma doença em suas mãos, devido aos movimentos excessivos dos dedos, e está seguindo carreira como maestro. Mas a sua interpretação ainda vive, em um elo entre o ouvinte e o compositor, que também vive, por intermédio deste trio compositor-obra-intérprete e o quarto elemento, que é o público.
Depois que ouvi novamente esta obra, agora em CD, pude reviver a emoção da primeira noite, aliada à objetividade racional da apresentação de sábado, pois agora, ouvindo mais vezes a obra, pude melhor compreendê-la em sua estrutura. Tornou-me à memória o que vi e ouvi naquelas apresentações, e era como se eu ouvisse ao vivo, novamente. A sensação voltou após eu ouvir o CD pela primeira vez - e foram duas audições em um único dia. No dia seguinte, passei-o inteiro com aquela sensação estranha, de excessiva melancolia, algo quase depressivo. Uma sensação única.
A melancolia é o dom de sentir-se triste sem sê-lo, e esta obra mais uma vez provou ser capaz de fazer-me provar um pouco deste sabor, que só os que realmente tiveram, em algum momento de deleite, o prazer de experimentá-lo, diante de uma obra de arte, de música, livro ou cinema, sabem o que é poder desfrutá-lo.
Referências: texto de Lauro Machado Coelho, do Estadão e texto de Roberto Farias, do Movimento.com