Contrapunctum

Este blog visa divulgar informações do campo da música de concerto (clássica ou erudita) e de outras artes e ciências de forma interativa, bem como expor idéias, opiniões, comentários e textos variados em áreas diversas.

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Name: Anderson Paiva
Location: São Paulo, SP, Brazil

Tenho 26 anos. Clarinetista e compositor amador. Sou evangélico (CCB), aprecio a música, a leitura, navegar na internet (fazer pesquisas e participar de fóruns). Gosto de conversar assuntos diversos, no campo das idéias. Tendência à reflexão e à introspecção. Predominantemente tranqüilo. Não tolero a falsidade e a arrogância. Prezo a humildade, a empatia e a lealdade. Sou um pouco desatento ao meio em que vivo, mas perspicaz na percepção das personalidades alheias. Conheço bem meu interior. Aprecio a discussão, no bom sentido; o debate de idéias. Incomodo-me com decisões de última hora, prefiro as coisas planejadas. Mas não sou organizado, nem metódico. Aliás, o oposto disto. E-MAIL: anton.stadler@gmail.com

Monday, January 30, 2006

Você reconhece este poema?

Há três possibilidades para resposta: você sabe, você "chuta", ou você pesquisa. De qualquer modo, responda!

Quem escreveu estes versos?

"Este povo que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo!
Por ele a ti rogando choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo é mal tratado,
Quero-lhe querer mal, será guardado".


Vamos ver quem acerta na mosca...

Sunday, January 29, 2006

Amigos do Vivace

Olá, amigos do Vivace!

Postem comentários!

Abraços.

Saturday, January 28, 2006

Arte: um espelho

Aspectos da criação e da percepção subjetiva da arte da música

O que é a arte?

Arte é evidência, evidencia de linhas de pensamento.

É a única verdadeira forma de manifestação do nosso interior.

A nossa personalidade, máscara do cotiano para os outros e para nós mesmos, é uma representação artificial do que somos. Revela a camada mais consciente e exterior do nosso pensamento, que é, inclusive, inlfuenciado por outros outros fatores e pessoas - muito influenciado, aliás, e por isto, está longe de ser original
A arte, porém, é uma manifestação direta, real e conectada ao nosso verdaeiro interior, à verdade essencial, às forças instintivas individuais, que possuem, em diferentes pessoas, diferentes em objetivos, e que guim cada um.
Seria esta força uma libido intelectuo-emocional, vinda do obscuro da mente, onde há o predomino das emoções e das idéias, do sentimento e da razão.
A arte é a forma pela qual esses impulsos tonram-se evidentes.
Eles vêm a tona, mas codificados pelo rigor e pelo capricho do trabalho da arte, e às suas regras e convenções.
Então, em artes como a música, esses impulsos nunca serão revelados totalmente.. a não ser para o próprio autor
Mas, para outrem, mesmo que não a arte não os revele completamente, revela pedaços desta verdade, que são fragmentos, e cada pessoa percebe, de alguma forma, alguns desses fragmentos.

Chega-se aí à conclusão de que a arte é manifestação do inconsciente, regida por e submetida ao rigor consciente.

O rigor acadêmico requer audição imparcial. Mas percebe-se essas verdades não buscando-se algo: elas é que se revelam para nós, naturalmente.

Donde conclui-se que não é papel do ouvinte buscar o subjetivo, mas é próprio da arte mostrar a nós os fragmentos de um interior de artista, que não representam, exatamente, o seu mundo individual e egocêntrico, mas um valor universal, e uma verdade humana.

Essas manifestações interiores, uma vez exteriorizadas, passam a ser verdades universais humanas, e não mais um mundo interior do artista. Passa a ser um reflexo do mundo interior de cada um que acesse a obra, em que, o público, em contato com a obra do artista, redescobre algo de si mesmo - no caso da música, sempre de forma dispersa, indefinida, incompleta, difusa e fragmentada.

Ao artista descobrir estas verdades, e ao passá-las adiante, pensará estar mostrando em um quadro um pedaço de sua verdade interior, mas quando o público acessa a obra, ao invés de descobrir as verdades do artista, percebe, antes as suas próprias verdades interiores

Assim, a arte não é como um quadro pintado pelo artífice, em que o este e o público vêem a mesma imagem, mas é como um espelho, que descobre aspectos interiores do autor, e o autor trabalha pensando que sua obra é um quadro em que são pinceladas imagens de seu mundo obscuro, mas quando essa arte é acessada pelo público, ele não verá um quadro, mas um espelho.

em 22/12/2005

Arte, egoísmo e equilíbrio

A Arte é egoísta.
Um egoísmo que não fere, nem machuca - na maioria das vezes.
O artista, ao fazer verdadeira arte, pensa em si próprio. A arte que (ao ser criada) é dirigida ao público, feita para agradar aos outros, é medíocre por si mesma. É fracasso antes da própria criação. A verdadeira criação é feita no interior do artista. A arte deve ser dirigida ao público após estar pronta, e não na sua criação. A concepção da obra realiza-se no útero do artista.
Tanto o autor quanto o apreciador são - ou devem ser - egoístas. O amante da arte, ao apreciar a obra, satisfaz-se a si próprio, como o autor. Assim, todo o objetivo ligado à arte que não seja a satisfação pura e egoísta é um erro, pois ao tentar agradar a outrem, trai-se a si mesmo, e aí perde-se o sentido da arte, tanto na criação quanto na apreciação - principalmente na criação.
Aproveitando uma frase de Carl Sagan, criar é viagem de autodescobrimento. Faz-se de fora para dentro, e não ao contrário. A semente germanina no interior da terra. Só assim será possível o aflorar da verdadeira flor que exala o seu permume, ou surgimento do fruto, doce ao paladar. Apreciados ao tornarem-se externos, são, porém, antes, germninados internamente.
Toda a tentativa de agradar a outrem na criação ou na apreciação leva, invariavelmente, à frustração e à dispersão.
O intérprete, nas artes em que é requerido, faz a ponte de ligação entre os dois pólos (autor e apreciador), e ele é um pouco de ambos. Deve ser um excelente mediador, tanto artista quanto a apreciador.
O apreciador da arte também é um artista. Todo criador deve ser, antes, um exímio apreciador. Adquirir técnica para produzir algo sem ter a necessária consciência de um verdadeiro apreciador leva à produção equivalente a um fruto bonito, mas sem sabor.
Mais vale uma obra autêntica de um amador, deficiente em técnica, do que a produção academicamente correta, mas sem expressão, sem originalidade, e sem vida, de um artista profissional.
É preciso compreender, aqui, o sentido que se emprega no termo "egoísta", geralmente vinculado a um sentido forte e maléfico. Aqui, emprega-se egoísmo no sentido de plena satisfação e gozo de um verdadeiro apreciador.
A arte, mesmo sendo produzida internamente, sem dirigir-se ao público no ato da criação, não precisa ser inacessível, pois o artista deve ser, a um só tempo, artista e apreciador! Ele está, na criação, também satisfazendo ao apreciador da arte, sendo, porém, este apreciador da arte, ele mesmo. Sendo ele também um grande apreciador, ao invés de um mero técnico de arte, faz, assim, obra original e acessível.
O apreciador da arte deve aproximar-se da arte, mesmo a mais difícil, procurando, em seus próprios caminhos internos, a maneira correta de apreciação, pois há vários ângulos e níveis de apreciação, e neste ponto deve haver uma empatia com o autor, sem perder, entretanto, o "egoísmo" necessário para a aprecição subjetiva e autêntica.
Enfim, requere-se também objetivismo do artista e do apreciador. Porém este objetivismo deve caminhar lado a lado com o aspecto subjetivo, sendo paralelo a este. Um não deve, jamais, sobrepor-se a outro, mas justapor-se.
A verdadeira arte requer técnica e experiência, que envolve aprendizado diário do artista (e do apreciador). Mas o aprendizado externo, o acadêmico, o das ferramentas necessárias para produção da arte não deve apagar as ferramentes internas, inerentes à própria alma do artista. Arte é, antes de tudo, expressão.
Temos aqui uma diferença primordial entre arte e ciência, pois esta, não é egoísta. Há arte em ciência, e há ciência em arte, mas a ciência não pode ser, jamais, egoísta. Na ciência há o pleno domínio da razão e da objetividade. Porém, até da ciência requer-se certa subjetividade, intuição, abstração em maleabilidade, perceptível em áreas como a Filosofia e a Psicologia, por exemplo.
A Arte jamais deve perder o seu impulso vindo da emoção do artista. Emoção e objetividade não se excluem. Há artes que são verdadeiros produtos cientifícos, perfeitos na forma, e até originais, com certo e interessante conteúdo filosófico. Mas, em seus cientifismos exarcebados, perde-se certa sensibilidade necessária a verdadeira arte. As ferramentas da arte, a técnica, o conhecimento, não deve ser o objetivo final da produção artística. Este deve ser um meio para que se atinja algo que sempre existiu na arte, mas que muitos artistas contemporâneos estão esquecendo: a comunicação.
A arte é também uma importante forma de comunicação e expressão, o que muitos JAMAIS conseguirão enxergar, pois, com um só olho, enxergam apenas um dos extremos. Algumas pessoas não foram preparadas para adquirir conhecimentos sem que lhes tolham coisas importantes como humildade e sensibilidade (este é o "outro egoísmo", do qual este texto não fala). Que riam-se, mas a arte é também uma importante forma de comunicação e expressão, embora não formal como a linguagem padronizada. A dança, a literatura, por exemplo, contém certos elementos, visuais e formológicos, respectivamente, que são uma forma de comunicação entre o autor e o apreciador. Mas esses valores vem sendo, de certa forma, subestimados por alguns artistas das correntes modernistas, em áreas como pintura, poesia e música.
Ao mesmo tempo que a arte é egoísta, ela se completa com a apreciação externa. A compreensão e equilíbrio entre esses dois paradoxos é que revela o verdadeiro nível de excelência, como um domínio entre luz e sombras.
A técnica é a ferramenta que torna possível a complementação da força expressiva e apreciadora inerente em todo o verdadeiro apreciador.
Todo verdadeiro apreciador é um criador em potencial. Muitos apreciadores são até mais sensíveis do que muitos artistas criadores, embora não possuam o conhecimento e técnica (ferramentas) necessários para produzir a arte que percebe-se em seu interior.
Arte é egoísmo. E, também, arte é equilíbrio.
em 26/11/2005

Uma noite inesquecível

Concerto para Oboé e orquestra de Marco Aurélio Yano

Gostaria de escrever sobre o impacto que teve em mim esta obra deste compositor brasileiro, falecido em 1991 com apenas 27 anos de idade. Câncer no cérebro.

Enquanto o compositor se esvaía, escrevia essa peça para o oboísta Alex Klein (um dos grandes da atualidade). O compositor chegou a terminar o concerto, mas não o editou - a peça ainda estava nos manuscritos, e demorou para ser publicada. Klein cuidou dos "retoques" finais, embora a obra já estivesse pronta, e foi o responsável pela edição da mesma.

Essa obra, uma das mais difíceis para o instrumento, feita "sob medida para Alex Klein" - conforme disse Robert Mincsuk -, ganhou emoção toda especial pelo caráter póstumo, de sofrimento, e também de desafio e emoção, envolvendo Klein e o compositor, na noite de quinta-feira, dia de sua estréia no Brasil (após ser apresentada no exterior), 7 de outubro de 2004, na Sala São Paulo, em que os familiares e amigos do compositor estavam presentes, e eu também ali estava e prestes a assistir uma apresentação com grande orquestra pela primeira vez, mas sem esperar pela emoção que viria a seguir.

"Marco Aurélio, embora nunca tenha escrito nenhuma biografia, vocês verão que o primeiro movimento deste concerto ['In Memorian'] é extremamente auto-biográfico. (...) Marco Aurélio foi, também, influenciado por esta maravilhosa música de Hollywood (segundo movimento)".

Bem, depois dos comentários de Mincsuk, fiquei atento, mais do que nunca, ao início do concerto, disposto a não perder um segundo sequer. Percebera que teria diante de mim algo raro. Um momento especial.

O concerto do então morto Marcos Aurélio Yano ganhou vida nas mãos de Alex Klein. Mas, antes, "terrível" foi a introdução da orquestra. Terrível; é a palavra.

Primeiro Movimento - "In Memorian"

Diante dos primeiros movimentos da batuta do maestro Mincsuk... tensão nos acordes das cordas graves. O prenúncio de algo terrível, algo de terror. Era a morte que espreitava e assombrava a mente do nosso compositor brasileiro Yano. Com uma orquestração densa, batidas, pulsações assustadoras, crescia, como uma fuga (não no sentido musical), um grito desesperado, e, de repente...

Entra o lindo solo de Alex Klein, penetrando a orquestra com uma nota do registro agudo, e a a agitação de outrora, de poucos segundos atrás, transforma-se em movimento lento, em que ouve-se somente o oboé, e em que o terror cede lugar ao mistério.

O solo progride e começa o inevitável diálogo com a orquestra. Timbres estranhos, não convencionais, por parte de algum instrumento grave da orquestra, que responde, nervosamente, ao oboé. A orquestração vai tornando-se complexa, até explodir com toda a orquestra, em que começa a luta entre esta e o solista.

Aqui inicia-se a seqüência de notas velocíssimas, em que o instrumento é levado às últimas conseqüências, algo que eu nunca tinha visto, nem imaginado. Identificar as notas? Como? Impossível! São muitas notas por segundo, em que o solista desenvolve um nervoso recitativo, no movimento que adota como base a linguagem serial (pormenores que descobri posteriormente, após pesquisa). Nada de tonal, nem harmonioso: somente puro virtuosismo e excelente técnica do solista, orquestração muito bem elaborada. Um momento em que não pude acompanhar exatamente as notas, em tempo real, mas que me assombrava pela capacidade de produzir em mim algo que, até então, nunca tinha sentido nem vivenciado.

Com arpejos, efeitos multifônicos, microtons, tudo isto, que causa espanto e estranheza, com sons "estranhos", que até então nunca tinha ouvido (depois descobri tratarem-se de microtons e multifônicos), Alex Klein transcedia os limites do instrumento, e vencia, uma a uma, as barreiras impostas pelo compositor. Sequências de notas impossíveis, algo indescritível, mas que acaba com uma nota super-aguda do oboé, que Alex que segura enquanto a orquestra segue em seu diálogo. Depois, cessa a orquestra, continua Alex Klein. Sustenta a nota por tempo demasiado, com uma afinação perfeita. Atinge o impossível. Que perfeito domínio do instrumento, ao sustentar uma nota dificílima e aguda, por tempo demasiado! Primorosa respiração circular!

Cessa o primeiro movimento.

Depois de algum silêncio, espanto, suspiros da platéia, diante de tanto heroísmo hérculeo do solista, e de todo o êxtase causado pela interpretação do regente e da orquestra, do primeiro movimento, "In Memorian", desta transcedental obra do talentoso compositor, cessa a "autobiografia". Inicia-se o segundo movimento.

Segundo Movimento - "Seresta"

Hollywoodiano...

Inicia-se com o oboé esboçando algo que tende ao extremamente belo. Sente-se logo nas primeiras notas do solitário oboé, a beleza da melodia, que virá a seguir. É o inicio desta cantinela melodiosa, pela qual Yano iniciou a composição.

É quando entram as cordas. Um dos mais belos momentos por mim vivenciados, de beleza indiscritível. Agora a música é tonal, e o que há é pura emoção. Oboé e orquestra dialogam harmoniosamente.

Ainda me lembro das lindas passagens da trompa, do lindo timbre e afinação impecável do oboé, dos inesquecíveis acordes das cordas.

Apesar do clima melodioso do movimento lento, há passagens dificílimas de serem executadas perfeitamente; cromatismos, cadências com variações da melodia, e com execesso de escalas, saltos, trilos, ornamentos.

Não tenho muito o que falar ou como descrever este movimento. Apenas me lembro de que a sensação de estar ali, presente, foi inefável e inesquecível, e que isto tudo não se pode traduzir em palavras.

Terceiro (e último) Movimento - "Frevo"

Depois da emoção romântica e melodiosa do segundo movimento, o terceiro é um frevo de melodia simples e alegre, e que parece inocente, ingênuo, mas que vai se desenvolvendo e tornando-se, gradativamente, mais denso e complexo. Aqui há contrastes rítmicos, e o solista executa com perfeição as complicadas cadências, que são sempre variações em torno do tema principal. Repentinamente todo este impulso ritmico (a peça é predominante em 7/8) é interrompido por um trio, que é uma canção triste, e inicia-se em uma belíssima melodia na trompa. Melodia esta que equipara-se à do segundo movimento, em estética e beleza, além de emoção profunda. Depois de a trompa ter enunciado o tema lento e maravilhoso, que é um dos momentos mais especiais da obra, o oboé retorna, e retorna o tema, até atingir o ápice, em notas agudíssimas, que depois serão repetidas pelas cordas, em que o oboé acompanha alguns graus abaixo, em dueto. Momento curto e infinito, ao mesmo tempo.

Impressionantes são as variações que aparecem a todo instante, seja nas cadências, seja no desenvolvimento dos temas, de forma fragmentada, por parte da orquestra. Tudo isto pude perceber não imediatamente, pois no dia, na ocasião da primeira audição, eu estava em êxtase, em deleite, e apreciava a obra em toda a emoção íntima, e ouvindo-a pela primeira vez, não poderia perceber as sutilezas musicais que esta continha, o que fui perceber depois, e já lhes conto como.

As variações, sobre o início alegre do frevo, por parte da orquestra, interrompem o trio melancólico e o retorno do tema inicial é agora denso, tenso, com variações orquestrais. Depois desta parte dialética, que é brilhante do ponto de vista da composição propriamente dita, uma surpresa: o tema triste, que é o trio deste terceiro movimento, retorna, agora, com os metais, que lenta e solenemente o expõem, até explodir (a orquestra) em uma triunfal coda final. Então a coda, finalmente, surge com ALEGRIA, paradoxalmente, e o terror fúnebre inicial é, enfim, esquecido e cessado. Nada melhor do que as palavras de Lauro Machado Coelho, do Estadão, para descrever este último momento: "Ao retornar, a seção rápida conduz a uma coda em tom de hino, surpreendente pois, superando o medo da morte que Yano devia sentir, ela é uma luminosa celebração da vida. Talento evidente que não pôde, infelizmente, desenvolver-se, Yano nos legou, per aspera ad astra, um aceno de adeus que é uma forma linda de permanecer conosco".

Assim finda-se o momento especial, desta obra que é, ao mesmo tempo, original e com influências de Piazzolla, Bernstein, Victor Young, Miklós Rózsa, e de alguns autores brasileiros. O público aplaudiu de pé o solista e a orquestra, por muitos minutos e a parte lenta do terceiro movimento, emocionante - repito sem cansar - foi represida por Alex Klein, também em homenagem aos pais do falecido compositor, que estavam presentes.

Comentários

O texto é longo, mas é excelente oportunidade para eu descrever com palavras, como for possível, este momento que foi um dos mais belos da minha vida e, com certeza, foi também um instante mágico para muitas outras pessoas que estavam ali presentes.

Esta obra já tinha sido executada lá fora, e no Brasil foi a estréia, quando pais, amigos e familiares do compositor Marco Aurélio Yano estavam presentes. Esses encontrei, depois, no camarim de Alex Klein, quando fui pegar um autógrafo, embora já fosse tarde da noite. Pareceu-me que, ali no camarim, eu era o único que não era "de casa". Todos elogiavam a brilhante execução de Alex, e este dizia: "Eu tinha que trazer esta maravilha para vocês [referindo-se à composição]". Também comentou, em uma espécie de confidência, que o compositor 'complicou', realmente, 'as coisas para o lado dele', com aquela obra - disse-o com outras palavras, das quais não me lembro, comprimindo os lábios, com uma expressão de quem reconhece que um colega se foi, mas deixou uma grande tarefa para ele concluir. Alex também confessou que, antes do concerto, teve que controlar a emoção, antes de estrear a obra, aqui.

Amigos, esta noite foi um dos momentos mais extasiantes que pude vivenciar, e juro-lhes que sai de lá como quem anda nas nuvens. Uma sensação estranha, penetrante, ficava dentro de mim; melancolia, algo que tem a ver com a emoção profunda da música que o compositor fazia especialmente para o nosso oboísta, e morria, e sabia que estava indo enquanto escrevia essa obra, que possui, com certeza, um conteúdo emocional muito forte. Traduzia uma vida, uma vida que estava indo, mas que ainda permanece, por meio desta obra.

A peça não é só emocionante; é uma peça muito bem escrita, do ponto de vista da composição, do aspecto musical. Explora todos os limites do oboé, sendo um dos concertos mais difíceis já feitos para o instrumento, e nem por isto deixa de ser belo. Arte que une ciência e beleza, sem que uma venha a atrapalhar a outra.

Esta obra, embora tenha influências, não é pastiche: é profundamente original. Muitos confundem e não conseguem compreender o valor desta jóia de raro valor, que é esta obra de autor brasileiro. Recomendo a todos que tentem adquiri-la; É MÚSICA DE ALTÍSSIMO NÍVEL E ALTÍSSIMA QUALIDADE.

A obra me impressionou tanto que resolvi assisti-la novamente, na segunda apresentação, no sábado, á tarde. O "clima" era outro: a obra, apresentada durante o dia, e o oboísta vestia uma camiseta branca esporte, ao invés do rigoroso traje da apresentação da noite de gala, na quinta-feira. O mesmo programa, a mesma qualidade musical. Mas a sensação foi diferente. Apreciei, desta vez, a música de um modo mais frio e direto, e pude apreciar, mais uma vez, música de altíssimo nível e qualidade. Mas nunca será esquecida a sensação da primeira apresentação, de quinta-feira, a anterior.

Depois de tudo isto, passaram-se dias, meses, e não me esqueci da apresentação. Jurei que iria adquirir o CD, por mais difícil que fosse, não importasse o tempo que passasse.

Há não muito tempo atrás, comecei a procurar este CD na internet. Encontrei um CD duplo, com a obra, em um site europeu. Informei-me sobre o procedimento de compra - nunca fui dado a comprar produtos pela internet - e pareceu-me um pouco complexo, pois iria ficar muito caro e não possuo cartão de crédito.

Depois dessas tentativas, algo aconteceu, e que foi uma grata surpresa: um colega meu, que é oboísta, quando fui procurá-lo, disse-me que possuia a obra. Fez-me o favor de gravar e pude, depois de tanto tempo, apreciar novamente esta maravilha.

Hoje o nosso Alex Klein não pode mais apresentar-se como outrora, por causa de uma doença em suas mãos, devido aos movimentos excessivos dos dedos, e está seguindo carreira como maestro. Mas a sua interpretação ainda vive, em um elo entre o ouvinte e o compositor, que também vive, por intermédio deste trio compositor-obra-intérprete e o quarto elemento, que é o público.

Depois que ouvi novamente esta obra, agora em CD, pude reviver a emoção da primeira noite, aliada à objetividade racional da apresentação de sábado, pois agora, ouvindo mais vezes a obra, pude melhor compreendê-la em sua estrutura. Tornou-me à memória o que vi e ouvi naquelas apresentações, e era como se eu ouvisse ao vivo, novamente. A sensação voltou após eu ouvir o CD pela primeira vez - e foram duas audições em um único dia. No dia seguinte, passei-o inteiro com aquela sensação estranha, de excessiva melancolia, algo quase depressivo. Uma sensação única.

A melancolia é o dom de sentir-se triste sem sê-lo, e esta obra mais uma vez provou ser capaz de fazer-me provar um pouco deste sabor, que só os que realmente tiveram, em algum momento de deleite, o prazer de experimentá-lo, diante de uma obra de arte, de música, livro ou cinema, sabem o que é poder desfrutá-lo.

Referências: texto de Lauro Machado Coelho, do Estadão e texto de Roberto Farias, do Movimento.com

O tesouro

Do destino permitiu a ironia
Que quando menos eu pensasse em achá-lo,
Sem querer, eu encontrasse, num estalo,
Este que hoje é minha eterna alegria:

Meu tesouro, o meu ouro, minha vida.
Aos meus olhos, tão logo eu possuía
(Ainda não completamente compreendia)
Invisível era a paz tão pretendida.

Porém quando da escuridão suposta
Lampejou com intenso brilho o seu valor
O tesouro foi encontrado e a resposta:
Era você quem eu procurava, meu amor.

Anderson Paiva, em 2003, dedicado a Josy Alves dos Santos

Friday, January 27, 2006

À luz do gênio de Salzburg

O que este blog e Wolfgang Amadeus Mozart têm em comum?

Ambos nasceram no mesmo dia. O memorável dia 27 de janeiro.

Portanto, hoje, à luz do gênio de Salzburg, nasce mais um blog, que é apenas mais uma estrela entre milhões e milhões de estrelas, e constelações, e galáxias, e multi-universos.

A diferença é que Mozart foi mais do que um compositor. Foi mais que uma estrela.

Foi maior do que o seu próprio nome.

Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Comemora-se, HOJE, os 250 anos do nascimento do que é considerado, por muitos, o maior gênio da música universal.

E ele está vivo, e presente. Ouçam sua música.