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Este blog visa divulgar informações do campo da música de concerto (clássica ou erudita) e de outras artes e ciências de forma interativa, bem como expor idéias, opiniões, comentários e textos variados em áreas diversas.

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Name: Anderson Paiva
Location: São Paulo, SP, Brazil

Tenho 26 anos. Clarinetista e compositor amador. Sou evangélico (CCB), aprecio a música, a leitura, navegar na internet (fazer pesquisas e participar de fóruns). Gosto de conversar assuntos diversos, no campo das idéias. Tendência à reflexão e à introspecção. Predominantemente tranqüilo. Não tolero a falsidade e a arrogância. Prezo a humildade, a empatia e a lealdade. Sou um pouco desatento ao meio em que vivo, mas perspicaz na percepção das personalidades alheias. Conheço bem meu interior. Aprecio a discussão, no bom sentido; o debate de idéias. Incomodo-me com decisões de última hora, prefiro as coisas planejadas. Mas não sou organizado, nem metódico. Aliás, o oposto disto. E-MAIL: anton.stadler@gmail.com

Monday, June 05, 2006

A arte de Aílton Rocha

Aílton Rocha é poeta, contista e ensaísta. Intelectual de Muzambinho, interior de Minas Gerais, possui estreitas relações com alguns dos grandes escritores brasileiros.

Tive o prazer de conhecê-lo em um fórum de discussões de música clássica, na internet. Trocamos algumas mensagens, e desde então venho aprendendo valiosos valores relacionados à arte humana. Impressionante sua clareza de raciocínio, capacidade de concentração, implacável lógica e, sobretudo, sua sensibilidade. Rocha pinta um retrato da mente humana em direção ao transcendente com profundidade e predomínio das sensações. Sensações psicológicas.

Recentemente tive a honra de receber via correio alguns de seus livros publicados, devidamente autografados: “Imagens” (poemas), “Nove Histórias de Amor e Vida” (coletânea com contos de três escritores, incluindo Aílton) e “Realismo (quatro histórias)”.

Em “Imagens”, o lúcido e cristalino jogo de palavras; a incrível orientação estética; a relação da mente humana com a natureza, com o insondável; e, em alguns momentos, lirismo, doçura, candura.

AH! QUERO SIM QUE OS LÍRIOS, A LUZ,
A brancura da luz te abram os olhos.
Que teus braços se desembaracem das
Algas marinhas – das vãs ilusões.

Que abram asas, abram asas teus braços,
Teu vulto de luminosa borboleta.
Voe, que voe, contornada de brilho!
O azul e nuvens sempre serão o teu lugar.

Rompam as algemas os teus pensamentos.
Para o sol! Para radiantes estrelas!
Para Deus! A amplidão está em ti!

Mas abre tuas asas, borboleta-celeste!
Um só dia, sobre mim, em meu coração. Tú!
Flutuante esperança! Amor que nunca tive!


(de Dois sonetos, de “Imagens”, pág. 54)

E vejam que nível de profundidade o autor alcança nesse trecho do conto “Quinze dias de chuva”, em que o narrador-personagem conta a sua experiência e convívio em um manicônio:

“Com que sonha um louco quando dorme? Será se é lúcido e há paz nesse sono? Ou loucura mesmo é pensar, refletir, como constantemente fazemos? (...)

O mistério. (...) Um pequeno fio, apenas um fiozinho de nada ampara a nossa lucidez. A qualquer momento pode acontecer a ruptura (...) A deformidade do entendimento (...) O que passa por detrás desses olhos mortiços? (...) É a verdadeira escuridão noturna. Em certos momentos, há um brilho. Será a clareza de quem desnudou os limites do real e do imaginário? Será a compreensão de quem rompeu o nó, o elo que nos liga ao enigma da existência? E eles nos olham, abrangentes, e, por instantes, riem, só nos cantos dos lábios como se reconhecessem em nós o ridículo e o verdadeiro absurdo. E não podemos trazê-los de volta. Não podemos compreender. É um segredo que retorna em espiral a uma outra região, desconhecida e abissal.”


(Quinze dias de chuva, de “Nove histórias de amor e vida”, pág. 73)


Em Realismo (quatro histórias), talvez sua obra mais profunda, a submersão no inconsciente e nos mistérios da mente humana é de uma interiorização impressionante. É obra para reflexão, de impacto, complexa, densa e profunda. Esses contos “foram construídos a partir da observação da psique humana, e criados como labirintos, câmaras, corredores subterrâneos”, conforme as próprias palavras do autor. Utilizando psicologia jungiana, símbolos esotéricos e técnicas expressionista e surrealista, o escritor aprofunda-se no realismo interior de seus personagens, com sensibilidade extrema, sentindo-lhes a dor com uma experiência humana, e criando, a partir de técnicas de assimilações variadas, um clima que sempre tende ao fantástico, ao insólito e ao inusitado. Sinceridade e originalidade são aspectos essenciais de sua de sua inconfundível estética. Conforme as palavras de Américo Carnevali Filho, “é realismo íntimo, criatividade artística e, ao mesmo tempo, sofrimento de toda a Humanidade”.
_______________________

_ Papai, o aquário não é um simples aquário, como o senhor pensa.
_ O que é, então, meu filho? Perguntou o engenheiro Jean Paul ao menino.
_ O aquário – repitiu ele – não é um simples aquário.
_ Explique-se melhor, filho. De onde tirou essa idéia? Tornou a perguntar o pai, de uma maneira desatenciosa, porque já estava acostumado com aquele tipo de pergunta.
_ Pai, pai. Pare um pouco esse esquadro. Ouça o que tenho a dizer antes que seja tarde demais.
_ Sim, meu filho. Já parei. Pode dizer agora.
_ Meu pai! Todo aquário tem um caminho para o oceano. Todos eles têm um túnel. Eu consigo enxergar a passagem no fundo do aquário... Eu vi a passagem...

(início do conto O Menino que Gostava de Peixes, de “Realismo - Quatro Histórias”)

3 Comments:

Anonymous Laerti Simões O. said...

A Arte de Ailton Rocha existe para ser sorvida. A vida própria da arte, no caso de Ailton Rocha, assume um aspecto singular. É difícil o conhecimento de um sem já estar muito próximo do outro. Opera em campos variados, centrado na sinceridade, com a mente elevada e o cérebro no mister de soldado da lógica. Sua obra conhecida do grande público é tímida perto da produzida, mas a profundidade dela compensa o quanto não pode ser vasta.

Mais que ter dedicado a vida à absorção da cultura para tornar-se um erudito circunspecto, ensimesmado, Ailton Rocha não absorve a luz do conhecimento para seu deleite; ao inverso, é fonte de luz e sinceridade, capaz de fazê-lo para trazer o profundo à tona de uma maneira desconcertante às vezes, de tão clara.

E sempre encontra o túnel que liga o aquário, vê a passagem daquele ambiente que a todos parece confinado por excelência.
A Arte é, no Ailton, a razão de viver. Nunca ouvi e senti confissão como a dele sobre a relação com a arte: não vive sem ela. E nisto não há figuração ou hipérbole. É só a verdade literal.

O rol das obras consignadas aqui, com uma pincelada para o leitor aguçar a vontade de conhecer o todo, não pode ser privado do que, assim vejo, é a cristalização de todas as suas andanças na sondagem do humano. "A Substância do Fogo" é a seleção das reflexões e comentários místico-esotéricos publicados nos últimos vinte anos. A sinceridade, como marca de tudo o que da Arte de Ailton Rocha pude conhecer, é a presença mais forte nesta obra.

Mas a verdadeira Arte do Ailton está em não ficar perdido no homem para o estudo dele. Percorre muitos ambientes e foge do espaço confinado para, assim liberto, ter visão diferente daquela muito comum, ácida, dos que atrofiam a crítica nas mazelas se atrelados ao mesmo local físico e mental daquele que tentam interpretar. A espiritualidade é evidenciada sem prisão rotulada em religião.

Como permaneço pouco na terra natal, Muzambinho, confesso que o espaço da Arte é um conforto largo, sem lugar e, por isto, carrego sempre a impressão colhida especialmente nas obras do Ailton, vitimando-o, às vezes, com longas impressões sobre temas variados. Por isto cabe a inconfidência de um confidente: a obra mais nova do Ailton é a antiga; quanto mais recente, menos nova, mais madura, reciclada na vida. O que deixa fluir ao conhecimento dos outros é quase uma fuga da própria arte, escapando ao artista. Se diz do seu amor à sua mãe, a frase significa uma vida e é sincera. Muitos poderiam fazê-lo com plástica, beleza parecida, mas poucos com tamanha sinceridade e verdade.

Na arte dele não há jorro aos borbotões. Decanta as reflexões de décadas até sentir o que será passado em, às vezes, uma frase de aparência simples. E nesta Arte há fartura e profundidade inalcançáveis às vezes, se sorvida de modo diverso daquele que ele mesmo o faz com a música. É indispensável sentir. A realidade é que tudo é música no que dele é colhido. Ser conhecedor profundo da música não o fez incapaz de ser surpreendido em todas as audições da mesma sinfonia, como água a modificar o mesmo rio, sempre diferente e novo.

O som universal, a verdade matemática, o ritmo, a precisão e graça que elevam a composição ao status do filarmônico ou sinfônico, tudo valorizado pelo silêncio, pela pausa reflexiva, nos movimentos que fazem o ir e vir, como rede dos sentidos, no balanço e bálsamo ao espírito. Este é, na verdade, o tom da arte do Ailton Rocha: um musicista como intelectual poeta, contista, ensaísta, crítico.

Não vejam na Arte dele o produto e imagem de um homem culto. Está bem acima e além disto. Não é artecerebrina, mero arranjo do conhecimento aglutinado; sem perder a qualidade, sem vir para a banalidade para ser compreendida, nem refugiar-se no rebuscado para parecer profunda, é a combinação do conhecimento, da filosofia como eixo e norte na espiritualidade, tudo escapando nas letras que só formam palavras após vestidas de sinceridade. Busca sem limites e organização lógica para, filtrada no sincero, ter destino certeiro nos sentimentos que vazamos ou escondemos.

Por não estar confinada ou amesquinhada ao porte do comentário, dele prescindindo, a Arte de Ailton Rocha pede mais do que ser conhecida: deseja ser sentida. É como ele: música. A aquisição de conhecimento é natural e leva o leitor a um ambiente novo, refinando a percepção para qualificar os sentidos.

Os que estão perdidos, de tão presos ao âmbito do entendido como concreto, são chamados à razão, ou falta dela, se tê-la demais é perder a sensibilidade. Em "O Menino Que Gostava de Peixes" a passagem adiante é exemplo disto. O Artista toma a orelha do leitor com a admoestação feita pelo filho ao pai:

"_ Explique-se melhor, filho. De onde tirou essa idéia? Tornou a perguntar o pai, de uma maneira desatenciosa, porque já estava acostumado com aquele tipo de pergunta.
_ Pai, pai. Pare um pouco esse esquadro. Ouça o que tenho a dizer antes que seja tarde demais.
_ Sim, meu filho. Já parei. Pode dizer agora.
_ Meu pai! Todo aquário tem um caminho para o oceano. Todos eles têm um túnel. Eu consigo enxergar a passagem no fundo do aquário... Eu vi a passagem... "

Em "O ANTIGO E O NOVO SE DESVENDAM", Ailton revelou o endereço no qual a arte mais deve buscar alimento e projetar efeitos:

"Não me espantou nem um pouco saber que, há alguns anos, os astrônomos ocidentais modernos ficaram confusos ao constatarem um fato estupendo: o peso da Terra é muito superior à sua massa, conjeturando que 1/3 dela talvez seja constituído de matéria invisível ao nosso olhar."

Enquanto muitos operam nos dois terços visíveis, poucos cuidam do terço origem e destino dos outros dois.

Para nós, nestes dois terços conhecidos, o elo para o terço essencial está no que expressamos como amor. Nas palavras do Artista em comento está a melhor definição:

"E, relembrando Dante, o divino poeta de Florença, me pergunto: por que não haveremos de consolidar a veracidade das últimas palavras de seu cântico? “L’Amor che muove il sole e l’altre stelle”.

3:08 AM  
Blogger Sir. Victor said...

Olá, eu gostaria de saber se você tem um contato do Aílton Rocha.
Estou procurando pela internet há tempos.
Ele é parente de família.
Obrigado.

7:30 PM  
Blogger Anderson said...

Olá, Victor.

O e-mail de Ailton Rocha é: ailtonrocha7@yahoo.com.br .

Um abraço,
Anderson Paiva

9:41 PM  

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