Qual é, afinal, o verdadeiro papel da arte contemporânea?
Transcrevo aqui um interessante ensaio do meu amigo
Ricardo Frantz, que expõem sua visão sobre esse tema, em um paralelo entre os artistas acadêmicos e os artistas de rua:
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SANTA IGNORÂNCIA
Gostaria de tratar neste texto de um pequeno grupo à margem dos circuitos oficiais de arte: os artistas de rua, mais especificamente aqueles que pintam casinhas, flores e paisagens e vendem seu trabalho, dentre outros lugares, diante do MacDonald’s da Praça da Alfândega. Alguém já parou para prestar atenção no seu trabalho? É uma aula de pintura contemporânea, e mais: de postura humana.
Gostaria de vê-los expondo de forma dignificada dentro de um bom museu. Gostaria de ver sua simplicidade imediatista mais viva entre os artistas cultos, sua despretensão mais disseminada no circuito de arte. Estamos precisando disso, minha gente. Temos palavreado demais, pensamento demais, e isso está entravando nosso progresso e nossa felicidade coletiva. É preciso mais amor direto, comunicação mais clara. A arte erudita está perdendo sua capacidade unificadora e dando margem a acirramentos de ânimo que contaminam outras áreas de nossa vida. Os excessos intelectuais esvaziam nossa vitalidade e a capacidade de interessar verdadeiramente o grande público.
Já diz a música: o artista precisa ir aonde o povo está. Aonde nós artistas diplomados e laureados estamos indo com nossa crescente erudição e nossos acumulados títulos acadêmicos? Inflando nosso ego e o da panelinha de sempre? É um círculo autofágico que consome rios de dinheiro e acrescenta pouco à felicidade geral. Contribuímos para a concentração de renda e para o aumento da pobreza do povo. Se fôssemos mais altruístas e despretensiosos exigiríamos menos museografia dispendiosa e daríamos mais prazer à população. Talvez assim os museus fossem freqüentados mais espontaneamente, se o povo pudesse se identificar mais com o que vê pendurado nas paredes, e pudesse encontrar nestas expressões mais diretas da arte mais pontes para as grandes manifestações eruditas que exigem preparo incomum para sua compreensão.
Não é o tamanho do currículo que atesta a qualidade do trabalho. Às vezes as coisas se sincronizam, muitas não. Estes pintores de rua têm uma obra que ganha de goleada de pelo menos metade da produção pictórica contemporânea que circula garbosa pelos museus atualmente. Mas a quantidade de discurso e diplomas e medalhas anexo à produção erudita garante-lhe uma colocação fácil mas questionável, haja vista sua pobre plasticidade, discurso amiúde rocambolesco e escassa inventividade. É comum ver o público percorrer as salas de exposição a passo batido – pouca coisa desperta seu interesse, pouca coisa o prende por sua alegria e exuberância – a obra exposta não as tem. O mais das vezes vemos um aborrecido discurso sobre o sexo dos anjos, ou sobre a solidão e degradação do ser humano e outras misérias.
Mas esse pessoal da rua não: seus quadros geralmente são um grito de alegria, suas cores espelham as da natureza banhada pelo sol, quando não tentam mesmo sobrepujá-las com a audácia do verdadeiro criador que ri com prazer e não por educação, e sabe fazer rir. Já cheguei à conclusão que boa parcela dos artistas eruditos perdeu a noção de gozo criativo, já não sabem, ou não podem, ou não querem vibrar, exultar, ter um êxtase com seu trabalho. Me pergunto por quê? Por que seus temas comuns são melancólicos, áridos, tenebrosos, em geral herméticos? Acho tocante a atitude daquele que se preocupa com os problemas e inquietudes do homem contemporâneo através da expressão plástica. Mas não são trabalhos que nos transmitam serenidade, ou representem um lenitivo ou solução para aqueles problemas e inquietudes, e é isso o que eu questiono na produção erudita mais em voga. É certo que é uma produção que estimula a reflexão. Mas sobre o quê mesmo?
Acho que nunca aprendi a gostar deste jogo... No meu caso pessoal, se fosse comprar uma obra de arte para colocar na parede de minha sala ou em meu quarto, não compraria creio que 80% do que vejo hoje em dia nos museus e galerias locais, mesmo que tivesse dinheiro sobrando. Talvez eu seja caseiro e pacato demais, mas por que eu colocaria uma grande "dúvida", uma grande "crítica", uma grande "inquietação" sobre o balcão da sala onde faço as refeições todos os dias? Eu ficaria com receio de ter má digestão. É sério, podem rir, mas é sério. Eu preferiria colocar um grande "sorriso", um belo e alegre "sim". Se acreditamos meeeesmo que a arte nos transmite coisas, sejam pensamentos, sensações ou sentimentos, deveríamos pensar bem antes de levar qualquer obra de arte para dentro de casa, e também para dentro de museus, ora essa! Por isso hoje em dia é tão difícil trazer o público para dentro dos museus, e gasta-se tanto com acessórios expositivos de caráter espetaculoso, pois estes sim atraem público. Já que o conteúdo vai ser meio amargo, meio deeenso, meio indigesto, meio obscuro ou meio intrincado... bem... pelo menos a moldurinha seja mais palatável. Não sei vocês, mas tenho a tendência a procurar instintivamente as coisas que me dão prazer, e acho que muita gente é assim. Hoje em dia o mundo anda tão agitado e febril, às vezes tão irritante para os nervos, tanto carro buzinando lá fora, tanta notícia ruim no jornal... não daria pra criarmos através da arte áreas de repouso mental e espiritual, ou de reenergização? Seria uma proposta tão descabida, uma função menos nobre ou menos interessante? É fácil para a arte fazer isso, em 30x40 cm se pode embutir todo um vasto panorama ensolarado, uma praia maravilhosa e pacífica, um matinho refrescante, umas casinhas mimosas, delicadas e habitadas por um povo gentil... o pessoal da rua faz isso, porque compreende o drama do mundo talvez muito mais do que a classe abastada, produtora e consumidora de arte erudita, e tenta com seus pincéis de crina de jumento e tintas de terceira fazer algo para contrabalançar o estado penoso das coisas, ao contrário do erudito, que
reitera o problema porque se o cara não "questiona" alguma coisa com sua obra ou se aparece na rodinha feliz demais pode ficar certo de ser repelido pela turma da intelectualidade e por grande parte dos donos da grana e das galerias... E assim repelem o grande público, não podem mais fazer as pessoas comuns vibrarem, se emocionarem, porque quando temos que parar para
pensar no que estão querendo nos dizer com obras sorumbáticas e monótonas, aí bailou geral... no máximo o pessoal diz: “que interessante”, com um sorriso amarelíssimo nos lábios, e sai à francesa na primeira chance. Se procurassem recuperar essa capacidade para a alegria, se procurassem temas mais vitalizantes e comunicativos, mais
comuns, talvez os artistas cultos não vestissem tanto o preto chiquérrimo e passassem a variar o guarda-roupa... e com ele o humor, via de regra sarcástico, ácido e belicoso. Já foi comprovado que as cores têm influência nos estados de ânimo. Esses pintores de rua primam pela simpatia pessoal e pela vasta gama cromática que empregam em seus trabalhos, um verdadeiro banquete visual.
Em termos de soluções plásticas são de uma riqueza inusitada. Mesmo que os temas sejam poucos e simples, normalmente paisagens despretensiosas, casarios, marinhas e flores, as combinações de cores, os efeitos de espaço, de luz e de texturas, usando e abusando do tão desprezado espatulado, variam
ad infinitum e cada trabalho é um surpreendente achado em termos de composição e equilíbrio formal. Estes pintores, benditamente ignorantes no sentido acadêmico, não temem ousar, não temem pintar um céu de roxo, porque não temem pintar um chão de laranja, não temem pintar casinhas porque amam a vida e conhecem o coração do povo, ao contrário do erudito que além de odiar andar de ônibus pensa meia hora quando não um dia inteiro antes de dar uma única pincelada e quando a dá estremece de angústia e se torce de dúvida e corre consultar um texto para verificar se aquele procedimento é adequado ou é coerente com seu fio condutor ou tem o referendo de algum arquidoutor que nunca pisou neste trópico. Benza Deus.... o que é isso, minha gente? Parece que o artista erudito sofre de um sério entupimento em algum lugar. As palavras e os conceitos entupiram seu cérebro, seu coração, sua criatividade, sua alegria, e só produzem mais palavras e mais conceitos, como um vírus a se multiplicar. Falta coragem, na minha opinião, falta amor, paz e riso – não a ironia, o deboche e o tédio que abundam nos papos-cabeça. Por isso se amparam nos currículos, nos textos, nas palavras, nos críticos... e por último no produto que fazem. Os da rua não temem a aventura, não temem criar com fluência, não temem errar, não temem vender sua arte na calçada, porque não temem ser incompreendidos pela grande massa, só temem que a grande massa, via de regra bem menos abonada, não possa sequer prescindir dos míseros vinte ou trinta pilas que cobram por cada trabalho, com um lucro mínimo.
Falando em pilas, a discrepância entre o acadêmico e o da rua neste ponto é avassaladora. Enquanto que este vende suas pequenas jóias a preço de banana, aquele por vinte ou trinta reais sequer levanta da cama e calcula seu preço a muitos dólares o metro quadrado de pintura – até nisso se percebe frieza e despersonalização: pintura a metro! Já se viu, Macunaíma? E é diametralmente oposta a intenção de cada um: o da rua, com modéstia exemplar, só pretende que seu trabalho lhe cubra o aluguel vencido, a comida diária e a reposição do material gasto, e principalmente
enfeite a sala do comprador e lhe traga alguma felicidade. O erudito já pensa em museus, mecenas, galerias, teses, patrocínios, catálogos, grandes coleções e quiçá uma bolsa para o estrangeiro para fugir desse país pobre, selvagem e atrasado, esquecendo que ao chegar lá seu passaporte e seu sotaque boliviano (
no?... ah, Brazilian... it's the same) vão imediatamente denunciá-lo como pobre, selvagem e atrasado e vão fazê-lo possivelmente experimentar na carne e no estrangeiro o que condenou nos outros e em casa.
O problema do erudito é que suas raízes estão longe daqui, ele tende a considerar seu país, seu povo e sua realidade imediata uma maldição. Ele gostaria de viver na Europa ou nos Estados Unidos e não ter que suportar o budum da ralé que acorda às 5 da matina para poder chegar a tempo no emprego na padaria que lhe faz o pão fresquinho de seu café ou na empresa que lhe importa da Rússia o pincel de pelo de marta ou da Inglaterra sua bibliografia autorizada. Longe das raízes, enlanguesce de nostalgia, e ainda cospe no prato que come. Benza Deus. Seu trabalho só pode ser sentido como frio, longínquo, nublado e alienígena para a população nativa deste país quente, vibrante e solar.
Com seu talento despretensioso, sua exuberância, sua comunicabilidade, sua humanidade e sua sabedoria, os pintores de rua nos humilham. Mas também nos alegram, pois estão por aí, e se quisermos podemos comprar com facilidade uma porção de trabalhos seus para alegrar nossas casas e talvez introduzir uma percepção diferente sobre a arte em nossas vidas.
Antes eu disse que gostaria de ver esses carinhas expondo em um museu. Mas agora me dou conta que correriam o grave risco de se contaminarem com o ambiente e acabarem perdendo a força e o encanto de sua ginga maneira, se viessem a se intimidar ou seduzir diante do luxo ostensivo e moderassem ou padronizassem seus santos atentados ao pseudo-bom-mocismo opressivo, brochante e engravatado que domina a cena oficial. Ia ser uma perda irreparável. Que fiquem nas ruas, livres, sadios, belos e ágeis como pássaros, longe dos museus, fiquem por lá fazendo o bem sem olhar a quem, e fiquemos nós por aqui entediados nesta escola de cinismo servindo
canapès a uma platéia seleta e orgulhosa que ainda reclama da qualidade do vinho servido grátis, sendo obrigados a ver esqueletos, monstros e fósseis pendurados nas paredes e esperando as duas ou três vezes por ano em que acontece alguma coisa que justifique a fortuna que o Estado despende na manutenção de instituições culturais que deveriam ser um ponto de encontro espontâneo da população e não passam via de regra de locais aonde só vamos obrigados ou para ver se apareceu algo que ainda não esteja podre neste reino da Dinamarca.
Bolívia. No, Brazil.... o, yes.
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Ricardo Frantz é artista plástico, compositor amador e Técnico em Assuntos Culturais da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul